SEXO E EROTISMO

yael
Nem toda relação erótica é sexual. Nem toda relação sexual é erótica. Erotismo é a nomeação do objeto. Sexo é a função física. Eros é o nome do amor mais completo. Erótico é o amor que você sente por uma pessoa única. O amor ágape é o que você sente por amigos e parentes. O amor cáritas é o que você sente por toda a humanidade. Então, as várias formas do amor se forma como uma pirâmide, sendo que, no topo está o amor erótico. É bom assinalar que pela pessoa nomeada você sente também um amor ágape, afinal ela é sua amiga (e até uma espécie de parente, pois é, ou poderá vir a ser, a mãe de seus filhos, por exemplo) e também sente por ela o amor cáritas, afinal, ela faz parte da humanidade (supondo-se que você não tenha se apaixonado por uma jumenta). Assim é na teoria. Mas, como tudo o que colocamos a mão, tratamos de desvirtuar (o brasileiro, então…). Com aquela pessoa que você escolheu para ser única e amar com todos os amores possíveis, você também faz sexo que é uma forma de se unir mais intimamente. Sexo com prostituta é um exemplo de relação sexual não erótica. Hoje, existe a camisinha, sexo com camisinha não é sexo, é masturbação e as pessoas costumam usar camisinha quando fazem sexo com prostitutas. Mas no tempo em que as pessoas faziam sexo sem camisinha com prostitutas, aquilo lá era sexo, mas não era uma relação erótica, pois ele nem sabia o nome da prostituta e sentia por ela apenas o amor cáritas. Erótico é o amor total. O que acontece entre a prostituta e seu freguês é mera relação de negócio. Eis uma desvirtuação do amor erótico: o sexo sem eros, que se dá quando a relação sexual não é erótica. Há, porém, outro desvirtuamento muito sutil e que muitos não percebem, que é quando a relação erótica não é sexual.
Associamos tanto o erotismo ao sexo que se aceita perfeitamente as relações eróticas assexuadas. Erotismo, como já disse, é nomeação ou personalismo, isto é, quando você elege e dá um nome a alguém de modo permanente, isto é relação erótica. Todas as outras pessoas passam pela sua vida, apenas uma fica. Todas as pessoas, exceto uma, fazem parte de um conjunto. Por exemplo: uma grande amiga é alguém que faz parte do conjunto de seus amigos (conjunto que tem, digamos, 48 pessoas). Seu pai faz parte de outro conjunto, o conjunto de seus parentes (que tem, digamos, 15 pessoas, considerando até o 4º grau, tirando os cunhados, enfim, dá um jeito aí até sobrar 15). Em alguns momentos cada uma dessas pessoas pode ser única para você. Há o dia dos pais, em que seu pai será o centro de suas atenções. Há o aniversário de sua prima, em que ela será nomeada também. Há a depressão de uma amiga por perder um grande amor e recorrerá a você e nesse momento você a acode e ela ganha um nome, saindo do conjunto a que pertence e sendo única. Passadas tais ocorrências, essas pessoas voltam a fazer parte do conjunto a que faziam e a vida segue. Há, porém uma pessoa que todos os dias você louva o fato de existir, parabeniza por cada coisa e se interessa por cada problema. Uma pessoa que você trata como se estivesse permanentemente fazendo aniversário ou deprimida. Uma pessoa que fala para você tudo o que sente todos os dias. Que liga quando se lembra de uma questão qualquer. Que está sempre online no msn para você. Uma pessoa que você decidiu que fará parte de seu dia e que você sente falta quando ela some. Alguém para quem você faz papel de psicólogo. Há alguém assim na sua vida? Pois com essa pessoa, você tem uma relação erótica. Se essa pessoa é apenas um amigo, você está brincando com fogo. Se essa pessoa não for seu cônjuge ou namorado e você tiver um cônjuge ou namorado, saiba que você está com bigamia, mesmo que jamais faça sexo com esse outro alguém. Simples assim. Esse tipo de amor é antigo. Acham natural que homens amem homens e mulheres amem mulheres desde a Grécia antiga, onde os exemplos de amor erótico sem sexo são muitos.
Tem aquele filme “Eu te amo, cara”, que fala do amor (sem sexo) entre dois amigos (é muito engraçado o sujeito já adulto em busca de um melhor amigo, ligando para homens, marcando encontro, ficando nervoso antes de ligar, enfim, se comportando exatamente como se estivesse procurando uma namorada, namorada que ele já tem e que lamenta o fato de que ele não tenha um melhor amigo). Chamo esse amor de erótico, pois ele elege e nomeia. É muito comum a tal “melhor amiga” da mulher. Há, porém, mais raramente, amores eróticos sem sexo entre um homem e uma mulher. Nessa hora é bom entender a psicologia de ambos. Um homem que começa conversar diariamente (sem a menor intenção de um dia parar com aquilo) com uma mulher (seja ela comprometida ou não) está tentando uma relação sexual, sem exceção. Quando a mulher, sem a menor intenção de se envolver sexualmente com o cara (mulheres são maternais, especialmente aquelas que não são mães), deixa o papo rolar e se torna a confidente do rapaz, muito provavelmente, em breve se tornará objeto erótico dele. Em face da atenção e do cuidado com que é tratado, os problemas dele jamais se acabarão e essa relação terá se tornado erótica. Um jogo que a mulher faz, muitas vezes, com a maior inocência, acreditando que aquilo é só amizade. Não é. Os problemas dos amigos aparecem e somem. Pessoa com problema permanente carecendo de sua atenção diária é aquela pessoa que você elegeu, deu um nome. Não é seu amigo, é seu amor. Se não é, está ocorrendo um desvirtuamento da relação erótica: a relação erótica sem sexo. Quando você tira um pouco de todos os seus dias para viver a vida do outro, não sendo você um psicólogo, essa relação é erótica. É assim com os filhos, mas a dependência dos filhos é passageira (normalmente). Há pessoas, algumas casadas, que passam toda a vida sem uma única relação erótica. Erotismo é quando duas pessoas vivem compartilhando as duas vidas mutuamente.
Será que essa procura por (ou essa mitificação do) um melhor amigo(a) se dá em face da dificuldade que homens e mulheres têm em se entender? Assim os machistas gregos justificavam o amor entre homens na Grécia antiga: o amor é algo tão sublime que somente homens, “criaturas superiores”, podem apreciar devidamente. Hoje, que sabemos que as mulheres são seres muito mais sublimes que os homens, vivemos em um tempo em que um homem e uma mulher podem muito bem se amar sentindo-se completos (ou perto disso) sem a menor necessidade de um melhor amigo para o homem ou uma melhor amiga para a mulher.
Toda escolha é uma perda, diz a frase pessimista. A escolha é também um enorme progresso, uma prova de humildade perante o fato de que jamais teremos tudo (e nem seria saudável querer tudo). A escolha é uma vitória. Toda rosa tem espinhos ou não seria uma rosa. Os defeitos de quem nós amamos são chances para provar nosso amor e oportunidade para que a pessoa amada prove do nosso amor. Que virtude há em amar alguém perfeito? Não obstante, buscamos a perfeição e quando nos falta (o que chamamos de perfeição) a quem amamos, procuramos a tal coisa em outras pessoas. Daí surge a prostituição, a necessidade de ir a psicólogos (que nada mais são do que amigos de aluguel) e a figura do (a) melhor amigo(a), pois há coisas que não podemos dizer para quem amamos. Ora, por que não? Que raio de amor é esse? O fato é que as pessoas continuam se achando muito sublimes para repartir sua vida com uma só e encontram essas desculpas esfarrapadas para a bigamia, ainda que sem sexo.
O casamento feliz, talvez, seja aquele em que a relação erótica e a sexual seja com a mesma pessoa. Sendo, pois, o eros o mais profundo envolvimento da alma e o sexo o mais profundo envolvimento do corpo. E, novamente, talvez, pois esse é um assunto que apenas tateio, toda infelicidade conjugal advenha da ausência dessa co-incidência. A mulher costuma ter ciúmes do(s) grande(s) amigo(s) do marido, pois se sente apenas um objeto sexual, pois, de fato, ele divide sua vida entre a mulher e os amigos, com quem conversa coisas que não conversa com a mulher. Na verdade, a maioria dos homens não gosta de mulher. Gostam de mulher apenas para namorar (fazer sexo). A maioria dos homens gosta mesmo é de homem e mantém, assim, relações eróticas com vários deles durante a vida. Relação de eleição e nomeação sem qualquer contato genital. A relação é erótica não por causa do sexo, mas apesar da ausência dele. Mas já divaguei demais…

ps – A foto da capa do disco da Yael é por que o amor é um pássaro no dedo.

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