LEITURAS

OS LIVROS Postei um dia desses em minha página no Facebook essa foto de duas prateleiras em uma coluna de minha estante de livros de onde retirarei os livros que vir a ler em 2014. Muita gente comentou e acabei prometendo escrever um texto sobre minhas leituras (olhei agora, não foi um dia qualquer, foi no dia 25/12/2013). Antes, quero esclarecer que a decisão de ler aqueles livros lá, e não outros, surgiu a partir de uma lista que andou rolando pela rede de 100 livros essenciais, feita pelo professor José Monir Nasser, que fui acrescentando e cortando, conforme o que EU gostaria de ler. É bom assinalar isso, pois eu sempre fico sem saber o que dizer quando alguém me pede sugestão de livros. Sem falsa modéstia, eu nunca sei o que dizer mesmo, pois, ninguém lê o mesmo livro. Cada um tem as próprias necessidades livrescas e deve ler os SEUS livros, não os meus. Claro que os saberes são interligados, que pessoas medianamente cultas têm dezenas de leituras em comum. Sobre aqueles livros da minha estante, quero dizer que, uma vez que meu pai não ganhou na Mega Sena da virada, talvez eu não tenha tempo de ler tudo. Ainda assim, há dois livros que eu gostaria muito que saíssem na foto, pois pretendo lê-los neste ano. O primeiro é “O Livro da Vida” de Santa Teresa de Ávila, que não saiu porque está emprestado e o outro é “Noel Rosa – Uma Biografia” de João Máximo e Carlos Didier que já li, talvez, um quinto dele e não está na foto por não caber mesmo, pois tem o formato de uma revista e ultrapassa a altura da prateleira. Alguém comentou que faltava literatura brasileira ali. De fato, ali falta, mas não faltará dentre minhas leituras. O fato é que, talvez por coincidência, lerei uns dois ou três livros de contos de Machado de Assis, Casa Grande & Senzala e mais Os Sertões não em papel, mas no iPad. Seria interessante, e justo, colocar o iPad naquela foto. Só mais uma coisinha, depois que postei a foto da estante, vi vários outros amigos postando suas leituras para 2014, espero, inclusive e principalmente no meu caso, que não seja só mera resolução de ano novo e que todos realmente leiamos bastante neste ano. E não só com os livros que pretendem ler, mas muitos com fotos dos livros que têm. Acho mais bonito do que o funk ostentação essa ostentação dos livros pelos mesmos motivos que achava o poeta Castro Alves, “o livro, caindo n’alma, é germe que faz a palma, é chuva que faz o mar”. Agora, veio essa tempestade de lista de 10 livros mais importantes na vida de cada um, o que me fez ter uma inveja danada do quanto o povo já leu mais livros importantes do que eu. Eu também fiz a minha e todos ali, o que li há mais tempo tem mais de 10 anos que li, pois não imagino que um livro possa ser realmente marcante na sua vida sem que se passe algum tempo e você tenha o distanciamento para uma melhor analise do peso da obra. E tem os Evangelhos que leio ainda hoje todos os dias (religiosamente, se me permitem o chiste). Bem, contextualizada a coisa, vamos ao que eu quero dizer sobre o assunto.
A primeira coisa que tenho em relação aos livros é muita frustração. Um livro médio, com o tempo que resolvi dedicar à leitura – 2 horas por dia – leva 10 dias para ser lido. Em 1 mês, eu terei lido 3 livros e visto 30 filmes. A desproporção entre o consumo de qualquer outra arte e a literatura é muito grande. Além disso, a boa literatura – que é a única com a qual eu perco meu tempo – requer concentração e foco, coisas que exige muito de mim, matérias que obtenho com muita dificuldade. Como eu penso mil coisas ao mesmo tempo, a hora da leitura para mim é uma hora penosa, por isso eu já disse aqui que não gosto de ler. Ao mesmo tempo, sou dependente da leitura. Sem ler, eu não existo, sou um animal irracional. É a leitura que me torna gente. A hora da leitura é aquela hora em que eu ajudo Deus a construir um ser que minimamente valha a pena. E é por causa da leitura que eu, também, escrevo. E escrevo dolorosamente. Escrevo meio protestando contra o fato de ter o que escrever e não é à toa que me tornei autor de aforismos e chistes, contos curtíssimos e descobridor de palíndromos, poeta de haicais, sonetos e letras de canções. É tudo tão curto porque morro de pena de quem me lê. Mais do que isso, tenho pena do transportador que vai piorar sua hérnia lombar ao carregar os caminhões com livros que ajudei a escrever, não posso me esquecer de rezar pelas pessoas que darão um problema na coluna graças ao peso dos livros que pegou ao fazer sua mudança. Ah, que não tenha nenhum meu lá, meu Deus. Adoro ir às grandes livrarias, feiras de livros e a ruas com dezenas de sebos só para contemplar milhões de livros ao meu redor e chegar à óbvia conclusão de que o mundo não precisa de mais livros. Chega! Todos os livros escritos já são suficientes. Então, isso me inspira a escrever mais e toda a minha frustração com o excesso de títulos no mundo não adiantou muito. A verdade é que eu não deveria escrever, o mundo não precisa de escritores, mas sinto que esta é a melhor coisa que sei fazer e todo mundo deveria ser obrigado a fazer a melhor coisa que sabe fazer, pois foi para isto que cada um foi feito. Para você que chegou até aqui neste texto imenso, vou compensá-lo confessando o que fiz para vencer a dispersão, que é a grande inimiga da leitura, da minha, pelo menos. Se não lhe for útil, espero que seja divertido.
Você pode dedicar 1 hora por dia para a leitura, isso já seria ótimo, pois daria umas 500 páginas por mês. Porém, se for muito dispersivo, após 1 hora de leitura pode ter lido só 3 ou 5 páginas, quando deveria mesmo ter lido pelo menos 18. Comigo era assim, e eu lia, lia, lia e não rendia. Já começava a ficar com vergonha dos autores. Eu pensava, puxa, se eu morrer hoje e me encontrar com Goethe no céu, vou mudar de calçada e esconder o rosto. Precisava encontrar um meio de resolver isso e então, Deus me ajudou e tive um clique durante uma feira de livros que fui e que me fez criar um método que turbinou minha leitura em qualidade e quantidade. Fui à feira unicamente ver a entrevista que minha amiga, a maravilhosa poeta Carla Andrade daria ao lançar seu segundo livro, Artesanato de Perguntas. Andando pela feira ouvi um escritor dizendo a um repórter, se justificando por que tinha largado a ficção: “hoje em dia ninguém mais tem tempo de levar 15 dias lendo um livro de 400 páginas…”. Eu pensei “opa, então essa é a média que uma pessoa normal lê, 400 páginas em 15 dias”. E a partir dali, comecei a fazer regras de três na minha cabeça, nem conversei direito com a Carla como gostaria. E alguns minutos depois, eu já tinha uma equação que me dava algo como a “hora-página” de um livro. Explico: todo livro é diferente em quantidade de caracteres por página. Inclusive, uns têm até 3 páginas separando um capítulo de outro. Outros são mais compactos às vezes porque a história é grande demais, às vezes para economizar papel mesmo. Assim, vi que a hora-página de cada livro é diferente. Decidi que leria 2 horas por dia. Considerei uma dispersão natural, pois ninguém lê como um robô. E as duas horas viraram 1h45. Como encontrar a hora-página? É assim: pego o livro que lerei e abro em uma página que esteja escrita de cima a baixo, isto é, a página onde certamente vou me demorar por mais tempo. Leio aquela página normalmente e cronometro os segundos que levei naquela leitura. O resto é matemática. Digamos que fiquei dois minutos e meio lendo a página. Divido 6.300 (quantidade de segundos que têm 1h45) por 150 (quantidade de segundos que tem 2 minutos e 30 segundos). O resultado dá 42. Isto é, daquele livro terei que ler 42 páginas por dia para poder dizer que li duas horas diárias. Achei essa coisa toda coisa de doido, mas foi assim que consegui derrotar a lesma que eu era lendo literatura séria. É um método ainda em aprimoramento, às vezes penso que poderia ler 4 páginas do livro aleatoriamente e achar uma média, está rendendo tão bem, que já passei de 6.300 para 7.000. O fato é que, lendo apenas aquilo que me interessa de verdade, coisa que recomendo a todos, e tendo uma disciplina razoável, hoje, sento-me um lugar muito confortável e coloco celular e iPad a 5 metros de distância para que a dispersão não vença a meta e leio. O livro que leio, por exemplo esse aí de 42 páginas por dia, começou, de fato na página 7, pois um livro nunca começa na página 1. Então, eu mantenho 2 marcadores, o primeiro para a página que estou lendo e o segundo para a página até onde devo ler naquele dia. Quando encontro uma pagina em branco, por passagem de capítulo ou por ter uma figura que ocupe a página inteira, eu coloco o segundo marcador uma página adiante a que ele estiver. Claro que todo livro deve ser lido conforme sua abordagem, tema e necessidade (quem ainda não leu, seria bom que lesse o livro de Mortimer Adler, Como Ler Livros), assim, dividi os livros em história/ficção e filosofia. Aos livros de filosofia, usarei como divisor 3.150 (no lugar dos 6.300 dos livros “mais fáceis”), assim terei mais tempo para os exercícios imaginativos de dramatização que esses livros obrigam o leitor a fazer, pois é assim que se deve ler filosofia, a teoria do filósofo tem que fazer sentido no mundo real e nessa, a imaginação deve fazer esse trabalho. Não basta ler um filósofo, há que dar uma surra de realidade na sua teoria para ver se ela passa, por isto, gastamos mais tempo lendo filosofia do que lendo história. Com isso, dedicando pouco mais de duas horas por dia para a leitura, na segunda-feira, 03/02 comecei a ler meu sétimo livro do ano. Assim, já posso até me dar ao luxo de fazer algumas extravagâncias com leitor. O livro que comecei na segunda-feira foi o No Caminho de Swann do Proust, que faz parte de uma obra grande chamada Em Busca do Tempo Perdido que são 7 livros. As pessoas têm medo dessa obra e raramente a enfrentam do começo ao fim. Acho que é falta de disciplina, pois o livro não é difícil, na verdade, é a coisa mais bem escrita que já vi na vida. De encher os olhos mesmo. Pois bem, resolvi ler cada um dos volumes do começo dos meses pares. Já estou até repensando e talvez leia cada um dos volumes a cada 3 ou 4 outros livros que ler. É que é bom demais, só vendo. Outra extravagância, é que vou ler também a cada dois meses um livro que esteja dentre os mais vendidos, coisa que eu jamais pretendi na vida. Fujo da moda. Pois, pensava, como vou ler um best-seller antes de ler Tolstoi? É errado. Mas, agora, eu posso.
Mesmo que você não goste muito, leia assim mesmo. Ler é como ir à academia. Mesmo que não goste, é bom para saúde e você acaba se acostumando. Além disso, lendo, você acaba conhecendo pessoas lindas por dentro, com a alma bem definida. É claro que alguns ficam marombados demais e acabam ficando chatos, como os rapazes que de tão bombados ficam com traços de nanismo, mas geralmente os que frequentam a academia de Platão é gente agradável e bem humorada.
Todo autor tem uma música em sua escrita. É o seu estilo. Eu costumo ficar com aquela “música” tocando no meu ouvido enquanto leio um livro. Por isto, para mim, é difícil ler livro ruim, pois não suporto música ruim (o que é música ruim? É aquela que EU acho ruim, logo cada um tem a sua, não é algo objetivo não). Proust tem uma música linda no nível do melhor barroco já feito. Proust é Bach. E vou ficar com essa sua música no ouvido por algum tempo, sem saber como fazer para não imitá-lo. Eu não posso conviver com um gago que logo fico gago também. Espero que Proust me contamine. Quando estava lendo o livro Violeiros de Leonardo Mota, já estava pensando em decassílabo. Mas, já escrevi demais. Era isso!

10 ANOS NESTA NOITE

Hoje este blog faz sua primeira década de vida.

Blog, coitado, é coisa do passado, não obstante, em outros lugares, principalmente nas redes sociais, continuamos fazendo a mesma que fazíamos no blog.

Vamos ver se eu publico mais aqui, enquanto isso, tenho escrito as mesmas coisas de sempre no formspring, no twitter e facebook. Quem quiser, pode me adicionar, ainda há vagas.

Abaixo, um post novo, um pouquinho maior, para marcar o dia.

TUDO O QUE SE QUER É CULTIVAR ERVA DANINHA

ervasdaninhas

É mais fácil se habituar às coisas erradas. Assim como não é preciso trabalho para cultivar erva daninha, é preciso muito esforço para cultivar arroz, milho e batatas. É preciso esforço para criar gado, porco e galinha. Nenhum para criar baratas e formigas. Não obstante, no caso do alimento que sustentará o nosso corpo, fazemos o esforço de plantar, cultivar e colher ou pagamos por ele. No caso dos hábitos, que sustentarão nossa alma e nos farão ser pessoas admiráveis perante Deus, geralmente, optamos pelo menor esforço. E chamamos de opressor e moralista aquele que diz: “faça o que é certo, mesmo que seja difícil”.

Uma coisa interessante é que as pessoas que reclamam das ações do moralista também é moralista com seus próprios filhos. Ninguém fala para a filha “não vou ser moralista com você, pode ser prostituta quando crescer, você decide”. Ninguém fala para o filho: “fume maconha o quanto quiser, longe de mim querer ser moralista com você”. Sempre que uma pessoa dessas “livres” (livre, geralmente é o que chamaam quem é escravo dos próprios apetites) percebe que o certo é certo e diz isso, em seguida, pede desculpa ou se justifica “e olha que eu não sou moralista”.

Assim como a erva daninha surge sem que ninguém a plante, nossos hábitos são naturalmente ruins. É preciso arrancar a erva daninha e plantar rosas. É preciso destruir os hábitos maus e plantar novos. E mais do que isso, ao menor descuido, a erva daninha invade o jardim. Os bons hábitos exigem eterna vigilância. Claro que há quem prefira a selva. Na selva, região onde a natureza floresce sem interferência humana, os bichos vivem apenas para atender seus apetites, participando da cadeia alimentar e cumprindo o ciclo da vida. É assim na selva. Porém, mesmo a selva exige um esforço e uma disciplina. É preciso também que se aprenda a viver na selva. Não adianta preferir a selva, não é possível fugir do esforço, pois a selva também cobra seu preço. O selvagem é um ser em constante medo. A moral é fruto da civilização. A selva é amoral. A moral serve para lembrar que não é preciso cultivar erva daninha e que isso também se aplica às ervas daninhas do espírito. Esforçar-se é acordar. Pensando bem, estamos todos dormindo. O fácil é aquilo que você faz sem atenção, sem pensar, meio como um zumbi. É o nada – o antideus – atuando. O caminho fácil é a porta larga, de que falava Cristo, e leva à perdição. Os anglofônicos falam “no pain, no gain” (que poderíamos traduzir “se esforça ou se lasca”). O certo é o difícil. Mesmo para manter a postura correta, aquela melhor para sua coluna e até para sua elegância, é preciso alguma dor (depois você acostuma). Um jogador de basquete americano dizia “quanto mais treino mais sorte tenho”. Não obstante, na contramão de tudo isso, vivemos em um mundo em que o “fazer o que se gosta” e o “dá mais prazer” comanda as ações das pessoas. Então, não pergunte por que vamos de mal a pior. Por que nossos alunos são os piores em todas as competições internacionais? Acho que essas crianças estão, como eu, ficando demais na internet, que é o supremo nada fazer, não se esforçar. Dá licença, vou ali ler o livro que comecei há quase um ano, que vergonha!

FEITIÇARIA E CIÊNCIA


A bruxaria sonha em se provar científica. Da mesma fora, o sonho de todo cientista é provar que são científicas as superstições que ele acredita. As poções medicinais da idade média (e de antes dela) eram compostas com o que se parecia muito com ingrediente de feitiçaria das histórias de bruxa que se lê hoje em dia. Coisas como chifre de unicórnio, lagartos fervidos e vermes lavados em vinho eram usados para curar pessoas e eram vistos por pessoas respeitáveis como alta ciência. (Não era bruxaria, era ciência. O que se chamava bruxaria naquele tempo era o que se chama de histeria hoje). Boa parte do que se chama feitiçaria hoje é, pois, tão somente as receitas a medicinais antigas, pois a ciência de ontem é a loucura e a superstição de hoje. A ciência de hoje parecerá o mesmo ao cientista do futuro.

DESAVISOS DOUZE


I
É possível amar Deus livremente? Claro que não. Amar Deus nos é imposto por um motivo: Deus é Amor, logo é impossível amar o que quer que seja sem amar Deus primeiramente. Deus é o amor que você ama e não teria sentido a pergunta “é possível amar o Amor livremente?”

II
O capitalismo chinês é uma arapuca. Os ocidentais caminham para o forno, como os judeus sob o nazismo que acreditavam ir tomar banho. Quando comprar um produto chinês, você está fornecendo a corda com que será enforcado. Acredite nos comunistas, eles são comunistas mesmo.

III
A pessoa, orgulhosa das próprias virtudes, aponta o dedo para o erro dos outros, como se sentir santo fosse coisa de um santo que se preze. Para tais moralistas, a embriaguez moral faz muito bem, pois mais vale um ébrio moral que se reconhece doente do que um moralista que se julga santo.

IV
O amor é um golpe violento. Por exemplo: amem vossos inimigos, eles vão ficar putos ao saber disso. Vão se sentir traídos. Será uma bofetada.

V
Em breve, tipificarão no Código Penal os preceitos bíblicos. Quem for contra o aborto, por exemplo, pegará de 12 a 30 anos de cadeia.

VII
O inferno é uma excelente escola. É no inferno que se deve estudar. No céu nada se aprende. É no inferno que descobrimos verdadeiramente o que nos falta e assim nos é revelado o que somos.

VIII
As descobertas e o avanço da ciência no século XVI, inclusive a grande produção artística deveu-se à ausência de internet. Newton estaria escrevendo em seu blog ao invés de descobrir as leis universais que regem a matéria.

IX
Kepler tinha sérios problemas de visão e só enxergava a curtíssima distância. O que ele fez, ficou choramingando sua triste sina? Não! Ele inventou o telescópio astronômico. Toda maldição é uma bênção.

X
Mestres perguntam; alunos respondem. A pergunta é mais importante que a resposta, pois uma pergunta nunca está errada. Uma pergunta nunca antes feita move céus e terra. Há diversas respostas soltas clamando pela pergunta certa e que a complete. Adestre-se na arte de perguntar.

BLOGUEIROS


Falam de Copérnico, Kepler, Galileu e seus livros revolucionários, mas é bom esclarecer que naquele tempo eram escritos centenas de livros “científicos” com teorias “revolucionárias” e todos eram, na opinião do autor, geniais. Eram os blogueiros da época. Toda época tem seus blogueiros. O tempo é que cuida de dizer quem tem alguma importância.

SEXO E EROTISMO

yael
Nem toda relação erótica é sexual. Nem toda relação sexual é erótica. Erotismo é a nomeação do objeto. Sexo é a função física. Eros é o nome do amor mais completo. Erótico é o amor que você sente por uma pessoa única. O amor ágape é o que você sente por amigos e parentes. O amor cáritas é o que você sente por toda a humanidade. Então, as várias formas do amor se forma como uma pirâmide, sendo que, no topo está o amor erótico. É bom assinalar que pela pessoa nomeada você sente também um amor ágape, afinal ela é sua amiga (e até uma espécie de parente, pois é, ou poderá vir a ser, a mãe de seus filhos, por exemplo) e também sente por ela o amor cáritas, afinal, ela faz parte da humanidade (supondo-se que você não tenha se apaixonado por uma jumenta). Assim é na teoria. Mas, como tudo o que colocamos a mão, tratamos de desvirtuar (o brasileiro, então…). Com aquela pessoa que você escolheu para ser única e amar com todos os amores possíveis, você também faz sexo que é uma forma de se unir mais intimamente. Sexo com prostituta é um exemplo de relação sexual não erótica. Hoje, existe a camisinha, sexo com camisinha não é sexo, é masturbação e as pessoas costumam usar camisinha quando fazem sexo com prostitutas. Mas no tempo em que as pessoas faziam sexo sem camisinha com prostitutas, aquilo lá era sexo, mas não era uma relação erótica, pois ele nem sabia o nome da prostituta e sentia por ela apenas o amor cáritas. Erótico é o amor total. O que acontece entre a prostituta e seu freguês é mera relação de negócio. Eis uma desvirtuação do amor erótico: o sexo sem eros, que se dá quando a relação sexual não é erótica. Há, porém, outro desvirtuamento muito sutil e que muitos não percebem, que é quando a relação erótica não é sexual.
Associamos tanto o erotismo ao sexo que se aceita perfeitamente as relações eróticas assexuadas. Erotismo, como já disse, é nomeação ou personalismo, isto é, quando você elege e dá um nome a alguém de modo permanente, isto é relação erótica. Todas as outras pessoas passam pela sua vida, apenas uma fica. Todas as pessoas, exceto uma, fazem parte de um conjunto. Por exemplo: uma grande amiga é alguém que faz parte do conjunto de seus amigos (conjunto que tem, digamos, 48 pessoas). Seu pai faz parte de outro conjunto, o conjunto de seus parentes (que tem, digamos, 15 pessoas, considerando até o 4º grau, tirando os cunhados, enfim, dá um jeito aí até sobrar 15). Em alguns momentos cada uma dessas pessoas pode ser única para você. Há o dia dos pais, em que seu pai será o centro de suas atenções. Há o aniversário de sua prima, em que ela será nomeada também. Há a depressão de uma amiga por perder um grande amor e recorrerá a você e nesse momento você a acode e ela ganha um nome, saindo do conjunto a que pertence e sendo única. Passadas tais ocorrências, essas pessoas voltam a fazer parte do conjunto a que faziam e a vida segue. Há, porém uma pessoa que todos os dias você louva o fato de existir, parabeniza por cada coisa e se interessa por cada problema. Uma pessoa que você trata como se estivesse permanentemente fazendo aniversário ou deprimida. Uma pessoa que fala para você tudo o que sente todos os dias. Que liga quando se lembra de uma questão qualquer. Que está sempre online no msn para você. Uma pessoa que você decidiu que fará parte de seu dia e que você sente falta quando ela some. Alguém para quem você faz papel de psicólogo. Há alguém assim na sua vida? Pois com essa pessoa, você tem uma relação erótica. Se essa pessoa é apenas um amigo, você está brincando com fogo. Se essa pessoa não for seu cônjuge ou namorado e você tiver um cônjuge ou namorado, saiba que você está com bigamia, mesmo que jamais faça sexo com esse outro alguém. Simples assim. Esse tipo de amor é antigo. Acham natural que homens amem homens e mulheres amem mulheres desde a Grécia antiga, onde os exemplos de amor erótico sem sexo são muitos.
Tem aquele filme “Eu te amo, cara”, que fala do amor (sem sexo) entre dois amigos (é muito engraçado o sujeito já adulto em busca de um melhor amigo, ligando para homens, marcando encontro, ficando nervoso antes de ligar, enfim, se comportando exatamente como se estivesse procurando uma namorada, namorada que ele já tem e que lamenta o fato de que ele não tenha um melhor amigo). Chamo esse amor de erótico, pois ele elege e nomeia. É muito comum a tal “melhor amiga” da mulher. Há, porém, mais raramente, amores eróticos sem sexo entre um homem e uma mulher. Nessa hora é bom entender a psicologia de ambos. Um homem que começa conversar diariamente (sem a menor intenção de um dia parar com aquilo) com uma mulher (seja ela comprometida ou não) está tentando uma relação sexual, sem exceção. Quando a mulher, sem a menor intenção de se envolver sexualmente com o cara (mulheres são maternais, especialmente aquelas que não são mães), deixa o papo rolar e se torna a confidente do rapaz, muito provavelmente, em breve se tornará objeto erótico dele. Em face da atenção e do cuidado com que é tratado, os problemas dele jamais se acabarão e essa relação terá se tornado erótica. Um jogo que a mulher faz, muitas vezes, com a maior inocência, acreditando que aquilo é só amizade. Não é. Os problemas dos amigos aparecem e somem. Pessoa com problema permanente carecendo de sua atenção diária é aquela pessoa que você elegeu, deu um nome. Não é seu amigo, é seu amor. Se não é, está ocorrendo um desvirtuamento da relação erótica: a relação erótica sem sexo. Quando você tira um pouco de todos os seus dias para viver a vida do outro, não sendo você um psicólogo, essa relação é erótica. É assim com os filhos, mas a dependência dos filhos é passageira (normalmente). Há pessoas, algumas casadas, que passam toda a vida sem uma única relação erótica. Erotismo é quando duas pessoas vivem compartilhando as duas vidas mutuamente.
Será que essa procura por (ou essa mitificação do) um melhor amigo(a) se dá em face da dificuldade que homens e mulheres têm em se entender? Assim os machistas gregos justificavam o amor entre homens na Grécia antiga: o amor é algo tão sublime que somente homens, “criaturas superiores”, podem apreciar devidamente. Hoje, que sabemos que as mulheres são seres muito mais sublimes que os homens, vivemos em um tempo em que um homem e uma mulher podem muito bem se amar sentindo-se completos (ou perto disso) sem a menor necessidade de um melhor amigo para o homem ou uma melhor amiga para a mulher.
Toda escolha é uma perda, diz a frase pessimista. A escolha é também um enorme progresso, uma prova de humildade perante o fato de que jamais teremos tudo (e nem seria saudável querer tudo). A escolha é uma vitória. Toda rosa tem espinhos ou não seria uma rosa. Os defeitos de quem nós amamos são chances para provar nosso amor e oportunidade para que a pessoa amada prove do nosso amor. Que virtude há em amar alguém perfeito? Não obstante, buscamos a perfeição e quando nos falta (o que chamamos de perfeição) a quem amamos, procuramos a tal coisa em outras pessoas. Daí surge a prostituição, a necessidade de ir a psicólogos (que nada mais são do que amigos de aluguel) e a figura do (a) melhor amigo(a), pois há coisas que não podemos dizer para quem amamos. Ora, por que não? Que raio de amor é esse? O fato é que as pessoas continuam se achando muito sublimes para repartir sua vida com uma só e encontram essas desculpas esfarrapadas para a bigamia, ainda que sem sexo.
O casamento feliz, talvez, seja aquele em que a relação erótica e a sexual seja com a mesma pessoa. Sendo, pois, o eros o mais profundo envolvimento da alma e o sexo o mais profundo envolvimento do corpo. E, novamente, talvez, pois esse é um assunto que apenas tateio, toda infelicidade conjugal advenha da ausência dessa co-incidência. A mulher costuma ter ciúmes do(s) grande(s) amigo(s) do marido, pois se sente apenas um objeto sexual, pois, de fato, ele divide sua vida entre a mulher e os amigos, com quem conversa coisas que não conversa com a mulher. Na verdade, a maioria dos homens não gosta de mulher. Gostam de mulher apenas para namorar (fazer sexo). A maioria dos homens gosta mesmo é de homem e mantém, assim, relações eróticas com vários deles durante a vida. Relação de eleição e nomeação sem qualquer contato genital. A relação é erótica não por causa do sexo, mas apesar da ausência dele. Mas já divaguei demais…

ps – A foto da capa do disco da Yael é por que o amor é um pássaro no dedo.