MORFOLOGIA

Figura de cima

Vi no trecho de uma sonata de Beethoven traços de Plotino. Vi em Escher todo o Wittgenstein. E mais, vi em Bach as sumas de São Tomás. Vi em Rodin um poema de Goethe. Em Pixinguinha, quadros de Renoir. No Padre Vieira, enxerguei Rembrandt. Como se vê facilmente, Mozart imita Shakespeare. Florbela fingia ser Fídias. João Gilberto é puro Mondrian. Cioran é Buster Keaton e Gene Kelly é Camões. Schönberg mesmo se via em Kandinsky que só pintava porque não nascera músico. A música descreve, a poesia colore, a filosofia conta histórias e a pintura argumenta. As coisas se abstratam e se concretizam. Como corpos se espiritualizam e espíritos se corporificam. Tudo pertence à morfologia do todo. Assim, leia um quadro de Piero della Francesca por uma semana e veja um livro de Nietzsche por cinco minutos, pois há muito mais a se apreender no primeiro do que no segundo. Gaste um mês ouvindo a mesma sinfonia até narrar os acontecimentos que ela propõe. Assovie uma tese filosófica até entendê-la de ouvido e poder passear por ela. Uma tese errada é aquela onde não se pode armar a tenda. A história universal do nada é enorme. É sobre o que mais se escreve hoje em dia. Sobre o nada. O nada tem adoradores. Viciados em nada só ouvem Beethoven, só lêem Goethe, só olham para Renoir. Seres sem imaginação não ouvem Rembrandt nem se embalam em Van Gogh. Na superfície de Vieira colhi muito contos. O solo de Homero já me assoviou canções. Poesias nos subterrâneos de Lao-Tsé. Nos planos cinematográficos, me surgem palíndromos. No sopro das flautas, vejo catedrais. De um prelúdio para alaúde saltam histórias inteiras navegando em lágrimas. Pitágoras que via Deus na matemática era o verdadeiro poeta. Augusto dos Anjos que via poesia no escarro era um filósofo. A literatura deve à música uma resposta ao poema sinfônico, algo como uma valsa discursiva e um concerto de não-ficção. Transmutar a linguagem é um modo de entender a comunicação ou perceber que está sendo enganado ou encantado. Se Wittgenstein fosse um artista plástico faria a obra de Escher, que tenta nos enlouquecer, mas que percebemos imediatamente que estamos sendo enganados e que aquilo não é uma descrição da natureza, pois não se pode subir uma escada que dá para o mesmo piso. Quase toda a filosofia moderna é composta de gente do tipo Escher que, por não saber desenhar, nos engana com palavras. O que aprendemos bem em Escher nos confunde e induz a erros em Wittgenstein. Uma melodia não nos engana, porém nos atordoa. Um desenho não nos faz assoviar, mas nos entontece. Um texto nos engana muito mais facilmente do que uma imagem. John Cage e toda a música atonal e dodecafônica é pura filosofia moderna. É a música feita de silêncios, é o objeto feito de espaços, é o sem-sentido e o nada coisificado. Como a filosofia cheia de certezas a favor da dúvida. O que ocorreu na modernidade foi isto: desenhistas destruidores de perspectivas resolveram escrever livros de filosofia. A mim não enganam, pois vejo perfeitamente os desenhos em seus argumentos. A água caindo para cima em suas teses, a mão desenhando a si própria em seus postulados. O quadro e a música podem ser entendidos por qualquer um. O texto por poucos. Não se engana com imagens. Engana-se com palavras. A invenção da imprensa foi uma grande contribuição à história universal da mentira. Com a facilidade de escrever e publicar, desenhistas danaram a escrever livros com erros de perspectiva. Depois com a invenção da gravação de sons, desenhistas danaram a compor e gravar músicas baseadas em seus problemas oftalmológicos. Beethoven era um compositor surdo, talvez se fosse cego não faria sua grande música. Goya era um pintor surdo. Se fosse cego, talvez tivesse inventado a pintura contemporânea. Mas voltemos à mentira. Deus não mente porque Deus fala com coisas. A realidade é a voz de Deus, Cristo é seu verbo. Dito isso, o diabo é o pai do discurso, porque é do discurso que vem a dialética, o sofisma, o argumento, o logro, a malícia, a esperteza, a velhacaria. Toda a festa em torno da palavra, do texto, que os modernos fazem tanto é uma ode a belzebu, pois a palavra humana é a matéria-prima da enganação. Pode não ser a única, mas é a mais eficaz. Não se engana ninguém com um minueto nem com uma aquarela. Há que se recorrer à palavra para capturar incautos. Em algumas gerações, quase todo mundo estará vendo o mundo às avessas graças ao poder das sugestões oriundas de teses de doidos. Por exemplo, hoje é comum que acreditem que o homem fez Deus (e não o contrário), culpa de tanto derramamento de tinta dos iluministas (enquanto seus ídolos políticos faziam igual derramamento de sangue). Ora, para acreditar que Deus fez o homem basta ser criança, para acreditar que o homem fez Deus há que se ler um bocado. Ninguém tem a mente entortada sem muita leitura. Por isto, não leio, vejo. Por isto não leio, assovio, por isto não escrevo, descrevo. Um humorista que não sabe desenhar é um pouco triste, pois o desenho potencializa magnificamente as possibilidades do humor. Todo humor é descritivo. Nenhuma teoria é engraçada. Algo sem graça é algo sem Deus. As belas artes e a música são possibilidades não verbais de comunicação e só a comunicação não verbal é sincera. Quando alguém quer mentir, fala alguma coisa. Minta com um ato que eu quero ver! Quando quer mentir muito e despudoradamente, escreve uma tese filosófica. Por isto o desenho é fundamental ao humorismo, pois o humor é o reino da verdade e da franqueza. A política é seu extremo oposto, por isto é difícil desenhar a política. Desdenho o que não desenho. A política é espaço da palavra e dos argumentos, é, pois, o espaço da mentira. Se Marx desenhasse suas teses seria tomado por um pintor surrealista e ninguém tentaria colocar aquilo lá em prática como não se tenta derreter relógio ou criar pedras que flutuam como Magritte e Dali faziam em seus quadros. Não é à toa que os surrealistas se dizem influenciada por Marx e Freud. Marx e Freud são os verdadeiros inventores do surrealismo. Este é o grande mal: os artistas são influenciados pelos intelectuais, quando seria muito mais bonito que não o fossem. O artista é o portador da beleza. E é a beleza que devemos seguir. A beleza não é uma teoria. A beleza é como o tempo em Santo Agostinho, nós não sabemos defini-la, mas sabemos o que é. Só coisas pequenas são definíveis. O artista se apequena e apequena sua arte quando segue os teóricos. Que livro influenciou Bach? Os Evangelhos. Que livro influenciou Rembrandt? Os Evangelhos. Já o dadaísmo definitivamente não foi influenciado pelos Evangelhos. Não há Deus – quer dizer grandeza – na arte moderna e na contemporânea. Quando a arte se torna míope, astigmática e glaucomatosa, ela expulsa Deus de seu campo e vice-versa. A pintura moderna é um borrão, a música moderna é um barulho assustador (ou um paradoxal silêncio), as instalações, que começaram como piada em Duchamps, são verdadeiros insultos ao público. É interessante que a arte faça o caminho inverso ao que dizia Marx, onde a farsa vem antes da tragédia. Quando o filósofo teoriza mal, o artista faz má arte e o político barbariza. O pensador influencia não só a arte, ele – e o místico – influencia toda a cultura ao seu redor. Salvador Dali lê Marx e faz aqueles quadros oníricos. Mao Tsé-Tung lê Marx e ordena a matança de 60 milhões de pessoas. Marx bem poderia ser um pintor e então só influenciaria outros pintores, no máximo. Artistas são seres estúpidos. Beethoven fez sua sinfonia nº 3 em homenagem a Napoleão Bonaparte. Como Napoleão Bonaparte poderia homenagear Beethoven? Eis o problema. Um político se deixa influenciar por um pensador, não por um músico. Para fazê-lo, Napoleão teria que ter imaginação. Teria que ouvir Beethoven como se fosse um conselho. Teria que sonhar Beethoven. Teria que tatear Beethoven. Porém, um homem com tal imaginação jamais seria um político. Seria um poeta. Beethoven influencia poetas. Um filósofo não precisa ser escritor e ninguém precisa escrever para ser um místico ou um profeta. Sua vida é sua obra. Sócrates, considerado o pai da filosofia e da ética, nada escreveu. Jesus de Nazaré, o homem mais influente da história, também nada escreveu. Um filósofo que escreve demais tem muita chance de se enrolar e enrolar os outros. A influência maior é sempre de um místico, de um profeta e de um filósofo. A arte influencia e é influenciada. Porém, há na arte uma autofagia. Raramente um artista influencia sua cultura, geralmente ele é influenciado por ela. Duchamps, que mudou nosso modo de olhar a arte, não era um construtor de sua arte. Influenciou mais como filósofo da arte do que como artista. O olho é mais inteligente do que o cérebro. Não obstante, muita gente acredita mais no que pensa do que no que vê. Se você quiser viver de enganar, que Deus o faça desenhista, jamais filósofo. No fim das contas, todos são retratistas da realidade e se não são deveriam ser. No desenho, você pode criar novos mundos que são imediatamente ao primeiro olhar identificado pela pessoa mais simplória como algo que não existe. Na filosofia, porém, não há consumidor simplório. Todo mundo é inteligente demais para ter a coragem infantil de dizer que o rei está nu.

Figura do Meio

RESPIGAR

Glaneur_1

Há filmes que começam, você olha as primeiras cenas meio cético porque grandes filmes não são a regra. Então, você para, pede o cérebro para adotar outra postura e prestar mais atenção, pois ali sim, há um grande filme que precisa ser visto atentamente e já fica se imaginando assistindo àquele filme a segunda, terceira ou quarta vez. É assim o filme “Les glaneurs et la glaneuse” de Agnès Varda, de 2000. A tradução é “Os respigadores e a a respigadora”. Respigar é o ato de catar as sobras. Na tradição dessa prática, desde a Idade Média, após a colheita, os respigadores (na verdade, a maioria eram mulheres) invadiam os campos – de trigo, batata, uva, maçã, azeitona, amêndoas, figos, couves, tomates e até ostras – para catar aquilo que foi ceifado mas não foi recolhido na colheita por alguma razão, algo como a xepa da colheita, no afã óbvio de que absolutamente nada fosse desperdiçado. Sabia que em três hectares de maçã, após a colheita pelo menos 10 toneladas ficam por apanhar? Um exemplo para nós que somos viciados em desperdícios e abstêmios em solidariedade (sim, pois a respiga só ocorre em propriedades privadas). Tanto que eu nem conhecia esse verbo em português “respigar”. Os verbos que usamos mostram nossas ações. Se não sabemos o que é respigar é porque tal ação não faz parte de nossa rotina. Os muitos que sabem bem o que é respigar por aqui, como naquele curta-metragem brasileiro Ilha das Flores, também não sabem o que é respigar por falta de vocabulário e nem querem saber, estão preocupados com o ronco do estômago vazio. Na França não é preciso ser miserável para respigar, como aqui no Brasil. Quem já viveu o horror da guerra e suas conseqüências está vacinado contra o desperdício. Há mesmo leis francesas desde o século XVI autorizando que, após a colheita, quem quiser pode invadir o campo para fazer a respiga (há quem faça por necessidade, há quem faça a respiga por prazer e até quem faça por ideologia, não importa a razão, todas são permitidas). Respigar é um direito. As sobras são de quem pegar. Após a colheita ou o descarte, é dono aquele que respiga. Por extensão e analogia, se torna direito de respigadores qualquer lixo ou container de descartes nas grandes cidades, pois não se respiga só no campo. Não se chama saque ou roubo a subtração do conteúdo do depósito de lixo de um supermercado, por exemplo.
Voltando ao filme, ele começa situando o espectador ao mostrar esse quadro abaixo de Jean-François Millet, Les Glaneuses, que se encontra atualmente no Museu d’Orsay, em Paris. Há outro quadro famoso sobre o tema chamado La Glaneuse, de Jules Breton, que se encontra atualmente no museu da cidade francesa de Arras. Aliás, Jules Breton tem vários quadros com o tema, um belíssimo chamado Le Rappel de Glaneuses, que está também no Musée d’Orsay, em Paris. No museu da cidade de Villefranche-Sur-Saône há outro quadro magnífico sobre o tema de Edmond Hédouin “Les glaneuses fuyant l’orage” (As respigadoras fugindo da tormenta). Há também poesias populares e eruditas sobre os respigadores e certamente há canções e romances a respeito, pois ações importantes vivem e se eternizam nas artes do país. A França vê beleza no ato de respigar. Aqui, vemos vergonha, como se evitar o desperdício a todo custo fosse coisa exclusiva dos desvalidos. Temos vergonha do que é correto e aplaudimos o que não presta, às vezes. Respigar também é coisa que se faz com nossas viagens, discos, amores, livros e toda a nossa vida. Depois de uma viagem, por exemplo, olhar as fotos é como respigar a viagem. Olhar com atenção o que já vimos centenas de vezes é respigar aquele lugar. Fazer tudo o que sempre fizemos como se estivéssemos fazendo pela primeira vez até que a poesia e a beleza renasça é respigar. Respigar é negar a existência do inútil. Respigar é recuperar. Respigar não é obter o que não presta, pois até na respiga se seleciona e se descarta. O artista que faz sua obra com produtos descartados é um glaneur, pois o mundo inteiro é uma colheita a ser respigada. Pensar seriamente no que nos incomoda e no que nos alegra e se sentir mais incomodado e mais feliz do que nunca com cada uma das coisas é respigar. Respigar é não deixar escapar nada da vida que nos foi dado. Respigar é agir depois da colheita, até que nós mesmos sejamos ceifados.

A PENA

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O filósofo, estadista e teólogo romano Boécio escreveu, no século VI, seu livro “A Consolação da Filosofia” na prisão enquanto esperava pelo cumprimento da pena de morte a que fora condenado. A chegada da morte pode nos fazer criar juízo, se interessar pelo que realmente interessa e até virar santo. O que não entendemos é o óbvio: todos nós recebemos à pena de morte. Não há um que já não esteja apenas esperando o dia. Ninguém sabe que dia é esse, mas a execução de tal pena é certíssima. Quando sentaremos em nossa cela e produziremos o nosso A Consolação da Filosofia? Pois bem, o livro que você escreverá ou o que eu escreverei, se escrevermos, não sei como será, mas o de Boécio é um dos melhores já escritos na história. Não é sem justiça que o livro está em toda lista de livros fundamentais que se encontre. Mesmo que as circunstâncias não fossem lá muito favoráveis para considerações filosóficas e poéticas, se ele tivesse toda a tranqüilidade sonhada, ainda assim, se produzisse um livro como aquele, já seria um feito maravilhoso. Mas, não tinha conforto nenhum, a morte já agendara O encontro e ele, escondido dos guardas, entre uma tortura e outra que sofria, escrevia uma das obras-primas da literatura mundial. Escrevia com originalidade, cuidado e métrica como se tempo lhe fosse matéria abundante. Entre a prosa e a poesia, mergulhando a fundo em questões essenciais da vida, escrevia sem tons de ressentimento ou tristeza, sem súplica ou proselitismo. Parecia que queria apenas escrever mais um de seus livros e não, como seria compreensível, para passar o tempo e se esquecer da morte que lhe esperava do lado de fora de sua cela. Perdoar-se-ia qualquer falha. Relevar-se-ia qualquer desafino ou falta de finesse, coisas para as quais um autor de prestígio deve sempre estar atento, afinal, o autor, no caso, era um moribundo que ali fazia, como os cisnes antes de morrer, seu mais lindo canto. Mas não há a menor necessidade de condescendência. A obra não nos pede nada. Nada nos deve. Nós é que seremos eternamente seus devedores. A Consolação da Filosofia, de Boécio, se encontra em catálogo, facilmente se a encontra nas livrarias, editado pela Martins Fontes, custa menos de 30 reais.  Livro para ler e reler. Livro para você responder de pronto quando alguém pedir uma indicação de leitura. Livro que você vai comprar uma dúzia para presentear. E, mais do que isso, livro que você vai querer decorar textos enormes dele. Livro que, depois da leitura, você estará engravidado(a) de uns poemas, ávido por ser capaz de fazer uma peça de teatro sobre ele, vai imaginar como seria um filme, vai querer compor uma canção, compor várias canções sobre os temas que propõe. E, principalmente, ficar com dor na consciência por agradecer a Deus pela condenação injusta que o autor sofreu, única razão do livro existir, se esquecendo que esta é uma das grandes especialidades de Deus: tirar do mal um bem tão infinitamente maior, a ponto de agradecermos pelo mal sofrido. O Livro!

LEITURAS

OS LIVROS Postei um dia desses em minha página no Facebook essa foto de duas prateleiras em uma coluna de minha estante de livros de onde retirarei os livros que vir a ler em 2014. Muita gente comentou e acabei prometendo escrever um texto sobre minhas leituras (olhei agora, não foi um dia qualquer, foi no dia 25/12/2013). Antes, quero esclarecer que a decisão de ler aqueles livros lá, e não outros, surgiu a partir de uma lista que andou rolando pela rede de 100 livros essenciais, feita pelo professor José Monir Nasser, que fui acrescentando e cortando, conforme o que EU gostaria de ler. É bom assinalar isso, pois eu sempre fico sem saber o que dizer quando alguém me pede sugestão de livros. Sem falsa modéstia, eu nunca sei o que dizer mesmo, pois, ninguém lê o mesmo livro. Cada um tem as próprias necessidades livrescas e deve ler os SEUS livros, não os meus. Claro que os saberes são interligados, que pessoas medianamente cultas têm dezenas de leituras em comum. Sobre aqueles livros da minha estante, quero dizer que, uma vez que meu pai não ganhou na Mega Sena da virada, talvez eu não tenha tempo de ler tudo. Ainda assim, há dois livros que eu gostaria muito que saíssem na foto, pois pretendo lê-los neste ano. O primeiro é “O Livro da Vida” de Santa Teresa de Ávila, que não saiu porque está emprestado e o outro é “Noel Rosa – Uma Biografia” de João Máximo e Carlos Didier que já li, talvez, um quinto dele e não está na foto por não caber mesmo, pois tem o formato de uma revista e ultrapassa a altura da prateleira. Alguém comentou que faltava literatura brasileira ali. De fato, ali falta, mas não faltará dentre minhas leituras. O fato é que, talvez por coincidência, lerei uns dois ou três livros de contos de Machado de Assis, Casa Grande & Senzala e mais Os Sertões não em papel, mas no iPad. Seria interessante, e justo, colocar o iPad naquela foto. Só mais uma coisinha, depois que postei a foto da estante, vi vários outros amigos postando suas leituras para 2014, espero, inclusive e principalmente no meu caso, que não seja só mera resolução de ano novo e que todos realmente leiamos bastante neste ano. E não só com os livros que pretendem ler, mas muitos com fotos dos livros que têm. Acho mais bonito do que o funk ostentação essa ostentação dos livros pelos mesmos motivos que achava o poeta Castro Alves, “o livro, caindo n’alma, é germe que faz a palma, é chuva que faz o mar”. Agora, veio essa tempestade de lista de 10 livros mais importantes na vida de cada um, o que me fez ter uma inveja danada do quanto o povo já leu mais livros importantes do que eu. Eu também fiz a minha e todos ali, o que li há mais tempo tem mais de 10 anos que li, pois não imagino que um livro possa ser realmente marcante na sua vida sem que se passe algum tempo e você tenha o distanciamento para uma melhor analise do peso da obra. E tem os Evangelhos que leio ainda hoje todos os dias (religiosamente, se me permitem o chiste). Bem, contextualizada a coisa, vamos ao que eu quero dizer sobre o assunto.
A primeira coisa que tenho em relação aos livros é muita frustração. Um livro médio, com o tempo que resolvi dedicar à leitura – 2 horas por dia – leva 10 dias para ser lido. Em 1 mês, eu terei lido 3 livros e visto 30 filmes. A desproporção entre o consumo de qualquer outra arte e a literatura é muito grande. Além disso, a boa literatura – que é a única com a qual eu perco meu tempo – requer concentração e foco, coisas que exige muito de mim, matérias que obtenho com muita dificuldade. Como eu penso mil coisas ao mesmo tempo, a hora da leitura para mim é uma hora penosa, por isso eu já disse aqui que não gosto de ler. Ao mesmo tempo, sou dependente da leitura. Sem ler, eu não existo, sou um animal irracional. É a leitura que me torna gente. A hora da leitura é aquela hora em que eu ajudo Deus a construir um ser que minimamente valha a pena. E é por causa da leitura que eu, também, escrevo. E escrevo dolorosamente. Escrevo meio protestando contra o fato de ter o que escrever e não é à toa que me tornei autor de aforismos e chistes, contos curtíssimos e descobridor de palíndromos, poeta de haicais, sonetos e letras de canções. É tudo tão curto porque morro de pena de quem me lê. Mais do que isso, tenho pena do transportador que vai piorar sua hérnia lombar ao carregar os caminhões com livros que ajudei a escrever, não posso me esquecer de rezar pelas pessoas que darão um problema na coluna graças ao peso dos livros que pegou ao fazer sua mudança. Ah, que não tenha nenhum meu lá, meu Deus. Adoro ir às grandes livrarias, feiras de livros e a ruas com dezenas de sebos só para contemplar milhões de livros ao meu redor e chegar à óbvia conclusão de que o mundo não precisa de mais livros. Chega! Todos os livros escritos já são suficientes. Então, isso me inspira a escrever mais e toda a minha frustração com o excesso de títulos no mundo não adiantou muito. A verdade é que eu não deveria escrever, o mundo não precisa de escritores, mas sinto que esta é a melhor coisa que sei fazer e todo mundo deveria ser obrigado a fazer a melhor coisa que sabe fazer, pois foi para isto que cada um foi feito. Para você que chegou até aqui neste texto imenso, vou compensá-lo confessando o que fiz para vencer a dispersão, que é a grande inimiga da leitura, da minha, pelo menos. Se não lhe for útil, espero que seja divertido.
Você pode dedicar 1 hora por dia para a leitura, isso já seria ótimo, pois daria umas 500 páginas por mês. Porém, se for muito dispersivo, após 1 hora de leitura pode ter lido só 3 ou 5 páginas, quando deveria mesmo ter lido pelo menos 18. Comigo era assim, e eu lia, lia, lia e não rendia. Já começava a ficar com vergonha dos autores. Eu pensava, puxa, se eu morrer hoje e me encontrar com Goethe no céu, vou mudar de calçada e esconder o rosto. Precisava encontrar um meio de resolver isso e então, Deus me ajudou e tive um clique durante uma feira de livros que fui e que me fez criar um método que turbinou minha leitura em qualidade e quantidade. Fui à feira unicamente ver a entrevista que minha amiga, a maravilhosa poeta Carla Andrade daria ao lançar seu segundo livro, Artesanato de Perguntas. Andando pela feira ouvi um escritor dizendo a um repórter, se justificando por que tinha largado a ficção: “hoje em dia ninguém mais tem tempo de levar 15 dias lendo um livro de 400 páginas…”. Eu pensei “opa, então essa é a média que uma pessoa normal lê, 400 páginas em 15 dias”. E a partir dali, comecei a fazer regras de três na minha cabeça, nem conversei direito com a Carla como gostaria. E alguns minutos depois, eu já tinha uma equação que me dava algo como a “hora-página” de um livro. Explico: todo livro é diferente em quantidade de caracteres por página. Inclusive, uns têm até 3 páginas separando um capítulo de outro. Outros são mais compactos às vezes porque a história é grande demais, às vezes para economizar papel mesmo. Assim, vi que a hora-página de cada livro é diferente. Decidi que leria 2 horas por dia. Considerei uma dispersão natural, pois ninguém lê como um robô. E as duas horas viraram 1h45. Como encontrar a hora-página? É assim: pego o livro que lerei e abro em uma página que esteja escrita de cima a baixo, isto é, a página onde certamente vou me demorar por mais tempo. Leio aquela página normalmente e cronometro os segundos que levei naquela leitura. O resto é matemática. Digamos que fiquei dois minutos e meio lendo a página. Divido 6.300 (quantidade de segundos que têm 1h45) por 150 (quantidade de segundos que tem 2 minutos e 30 segundos). O resultado dá 42. Isto é, daquele livro terei que ler 42 páginas por dia para poder dizer que li duas horas diárias. Achei essa coisa toda coisa de doido, mas foi assim que consegui derrotar a lesma que eu era lendo literatura séria. É um método ainda em aprimoramento, às vezes penso que poderia ler 4 páginas do livro aleatoriamente e achar uma média, está rendendo tão bem, que já passei de 6.300 para 7.000. O fato é que, lendo apenas aquilo que me interessa de verdade, coisa que recomendo a todos, e tendo uma disciplina razoável, hoje, sento-me um lugar muito confortável e coloco celular e iPad a 5 metros de distância para que a dispersão não vença a meta e leio. O livro que leio, por exemplo esse aí de 42 páginas por dia, começou, de fato na página 7, pois um livro nunca começa na página 1. Então, eu mantenho 2 marcadores, o primeiro para a página que estou lendo e o segundo para a página até onde devo ler naquele dia. Quando encontro uma pagina em branco, por passagem de capítulo ou por ter uma figura que ocupe a página inteira, eu coloco o segundo marcador uma página adiante a que ele estiver. Claro que todo livro deve ser lido conforme sua abordagem, tema e necessidade (quem ainda não leu, seria bom que lesse o livro de Mortimer Adler, Como Ler Livros), assim, dividi os livros em história/ficção e filosofia. Aos livros de filosofia, usarei como divisor 3.150 (no lugar dos 6.300 dos livros “mais fáceis”), assim terei mais tempo para os exercícios imaginativos de dramatização que esses livros obrigam o leitor a fazer, pois é assim que se deve ler filosofia, a teoria do filósofo tem que fazer sentido no mundo real e nessa, a imaginação deve fazer esse trabalho. Não basta ler um filósofo, há que dar uma surra de realidade na sua teoria para ver se ela passa, por isto, gastamos mais tempo lendo filosofia do que lendo história. Com isso, dedicando pouco mais de duas horas por dia para a leitura, na segunda-feira, 03/02 comecei a ler meu sétimo livro do ano. Assim, já posso até me dar ao luxo de fazer algumas extravagâncias com leitor. O livro que comecei na segunda-feira foi o No Caminho de Swann do Proust, que faz parte de uma obra grande chamada Em Busca do Tempo Perdido que são 7 livros. As pessoas têm medo dessa obra e raramente a enfrentam do começo ao fim. Acho que é falta de disciplina, pois o livro não é difícil, na verdade, é a coisa mais bem escrita que já vi na vida. De encher os olhos mesmo. Pois bem, resolvi ler cada um dos volumes do começo dos meses pares. Já estou até repensando e talvez leia cada um dos volumes a cada 3 ou 4 outros livros que ler. É que é bom demais, só vendo. Outra extravagância, é que vou ler também a cada dois meses um livro que esteja dentre os mais vendidos, coisa que eu jamais pretendi na vida. Fujo da moda. Pois, pensava, como vou ler um best-seller antes de ler Tolstoi? É errado. Mas, agora, eu posso.
Mesmo que você não goste muito, leia assim mesmo. Ler é como ir à academia. Mesmo que não goste, é bom para saúde e você acaba se acostumando. Além disso, lendo, você acaba conhecendo pessoas lindas por dentro, com a alma bem definida. É claro que alguns ficam marombados demais e acabam ficando chatos, como os rapazes que de tão bombados ficam com traços de nanismo, mas geralmente os que frequentam a academia de Platão é gente agradável e bem humorada.
Todo autor tem uma música em sua escrita. É o seu estilo. Eu costumo ficar com aquela “música” tocando no meu ouvido enquanto leio um livro. Por isto, para mim, é difícil ler livro ruim, pois não suporto música ruim (o que é música ruim? É aquela que EU acho ruim, logo cada um tem a sua, não é algo objetivo não). Proust tem uma música linda no nível do melhor barroco já feito. Proust é Bach. E vou ficar com essa sua música no ouvido por algum tempo, sem saber como fazer para não imitá-lo. Eu não posso conviver com um gago que logo fico gago também. Espero que Proust me contamine. Quando estava lendo o livro Violeiros de Leonardo Mota, já estava pensando em decassílabo. Mas, já escrevi demais. Era isso!

10 ANOS NESTA NOITE

Hoje este blog faz sua primeira década de vida.

Blog, coitado, é coisa do passado, não obstante, em outros lugares, principalmente nas redes sociais, continuamos fazendo a mesma que fazíamos no blog.

Vamos ver se eu publico mais aqui, enquanto isso, tenho escrito as mesmas coisas de sempre no formspring, no twitter e facebook. Quem quiser, pode me adicionar, ainda há vagas.

Abaixo, um post novo, um pouquinho maior, para marcar o dia.

TUDO O QUE SE QUER É CULTIVAR ERVA DANINHA

ervasdaninhas

É mais fácil se habituar às coisas erradas. Assim como não é preciso trabalho para cultivar erva daninha, é preciso muito esforço para cultivar arroz, milho e batatas. É preciso esforço para criar gado, porco e galinha. Nenhum para criar baratas e formigas. Não obstante, no caso do alimento que sustentará o nosso corpo, fazemos o esforço de plantar, cultivar e colher ou pagamos por ele. No caso dos hábitos, que sustentarão nossa alma e nos farão ser pessoas admiráveis perante Deus, geralmente, optamos pelo menor esforço. E chamamos de opressor e moralista aquele que diz: “faça o que é certo, mesmo que seja difícil”.

Uma coisa interessante é que as pessoas que reclamam das ações do moralista também é moralista com seus próprios filhos. Ninguém fala para a filha “não vou ser moralista com você, pode ser prostituta quando crescer, você decide”. Ninguém fala para o filho: “fume maconha o quanto quiser, longe de mim querer ser moralista com você”. Sempre que uma pessoa dessas “livres” (livre, geralmente é o que chamaam quem é escravo dos próprios apetites) percebe que o certo é certo e diz isso, em seguida, pede desculpa ou se justifica “e olha que eu não sou moralista”.

Assim como a erva daninha surge sem que ninguém a plante, nossos hábitos são naturalmente ruins. É preciso arrancar a erva daninha e plantar rosas. É preciso destruir os hábitos maus e plantar novos. E mais do que isso, ao menor descuido, a erva daninha invade o jardim. Os bons hábitos exigem eterna vigilância. Claro que há quem prefira a selva. Na selva, região onde a natureza floresce sem interferência humana, os bichos vivem apenas para atender seus apetites, participando da cadeia alimentar e cumprindo o ciclo da vida. É assim na selva. Porém, mesmo a selva exige um esforço e uma disciplina. É preciso também que se aprenda a viver na selva. Não adianta preferir a selva, não é possível fugir do esforço, pois a selva também cobra seu preço. O selvagem é um ser em constante medo. A moral é fruto da civilização. A selva é amoral. A moral serve para lembrar que não é preciso cultivar erva daninha e que isso também se aplica às ervas daninhas do espírito. Esforçar-se é acordar. Pensando bem, estamos todos dormindo. O fácil é aquilo que você faz sem atenção, sem pensar, meio como um zumbi. É o nada – o antideus – atuando. O caminho fácil é a porta larga, de que falava Cristo, e leva à perdição. Os anglofônicos falam “no pain, no gain” (que poderíamos traduzir “se esforça ou se lasca”). O certo é o difícil. Mesmo para manter a postura correta, aquela melhor para sua coluna e até para sua elegância, é preciso alguma dor (depois você acostuma). Um jogador de basquete americano dizia “quanto mais treino mais sorte tenho”. Não obstante, na contramão de tudo isso, vivemos em um mundo em que o “fazer o que se gosta” e o “dá mais prazer” comanda as ações das pessoas. Então, não pergunte por que vamos de mal a pior. Por que nossos alunos são os piores em todas as competições internacionais? Acho que essas crianças estão, como eu, ficando demais na internet, que é o supremo nada fazer, não se esforçar. Dá licença, vou ali ler o livro que comecei há quase um ano, que vergonha!

FEITIÇARIA E CIÊNCIA


A bruxaria sonha em se provar científica. Da mesma fora, o sonho de todo cientista é provar que são científicas as superstições que ele acredita. As poções medicinais da idade média (e de antes dela) eram compostas com o que se parecia muito com ingrediente de feitiçaria das histórias de bruxa que se lê hoje em dia. Coisas como chifre de unicórnio, lagartos fervidos e vermes lavados em vinho eram usados para curar pessoas e eram vistos por pessoas respeitáveis como alta ciência. (Não era bruxaria, era ciência. O que se chamava bruxaria naquele tempo era o que se chama de histeria hoje). Boa parte do que se chama feitiçaria hoje é, pois, tão somente as receitas a medicinais antigas, pois a ciência de ontem é a loucura e a superstição de hoje. A ciência de hoje parecerá o mesmo ao cientista do futuro.