MORFOLOGIA

Figura de cima

Vi no trecho de uma sonata de Beethoven traços de Plotino. Vi em Escher todo o Wittgenstein. E mais, vi em Bach as sumas de São Tomás. Vi em Rodin um poema de Goethe. Em Pixinguinha, quadros de Renoir. No Padre Vieira, enxerguei Rembrandt. Como se vê facilmente, Mozart imita Shakespeare. Florbela fingia ser Fídias. João Gilberto é puro Mondrian. Cioran é Buster Keaton e Gene Kelly é Camões. Schönberg mesmo se via em Kandinsky que só pintava porque não nascera músico. A música descreve, a poesia colore, a filosofia conta histórias e a pintura argumenta. As coisas se abstratam e se concretizam. Como corpos se espiritualizam e espíritos se corporificam. Tudo pertence à morfologia do todo. Assim, leia um quadro de Piero della Francesca por uma semana e veja um livro de Nietzsche por cinco minutos, pois há muito mais a se apreender no primeiro do que no segundo. Gaste um mês ouvindo a mesma sinfonia até narrar os acontecimentos que ela propõe. Assovie uma tese filosófica até entendê-la de ouvido e poder passear por ela. Uma tese errada é aquela onde não se pode armar a tenda. A história universal do nada é enorme. É sobre o que mais se escreve hoje em dia. Sobre o nada. O nada tem adoradores. Viciados em nada só ouvem Beethoven, só lêem Goethe, só olham para Renoir. Seres sem imaginação não ouvem Rembrandt nem se embalam em Van Gogh. Na superfície de Vieira colhi muito contos. O solo de Homero já me assoviou canções. Poesias nos subterrâneos de Lao-Tsé. Nos planos cinematográficos, me surgem palíndromos. No sopro das flautas, vejo catedrais. De um prelúdio para alaúde saltam histórias inteiras navegando em lágrimas. Pitágoras que via Deus na matemática era o verdadeiro poeta. Augusto dos Anjos que via poesia no escarro era um filósofo. A literatura deve à música uma resposta ao poema sinfônico, algo como uma valsa discursiva e um concerto de não-ficção. Transmutar a linguagem é um modo de entender a comunicação ou perceber que está sendo enganado ou encantado. Se Wittgenstein fosse um artista plástico faria a obra de Escher, que tenta nos enlouquecer, mas que percebemos imediatamente que estamos sendo enganados e que aquilo não é uma descrição da natureza, pois não se pode subir uma escada que dá para o mesmo piso. Quase toda a filosofia moderna é composta de gente do tipo Escher que, por não saber desenhar, nos engana com palavras. O que aprendemos bem em Escher nos confunde e induz a erros em Wittgenstein. Uma melodia não nos engana, porém nos atordoa. Um desenho não nos faz assoviar, mas nos entontece. Um texto nos engana muito mais facilmente do que uma imagem. John Cage e toda a música atonal e dodecafônica é pura filosofia moderna. É a música feita de silêncios, é o objeto feito de espaços, é o sem-sentido e o nada coisificado. Como a filosofia cheia de certezas a favor da dúvida. O que ocorreu na modernidade foi isto: desenhistas destruidores de perspectivas resolveram escrever livros de filosofia. A mim não enganam, pois vejo perfeitamente os desenhos em seus argumentos. A água caindo para cima em suas teses, a mão desenhando a si própria em seus postulados. O quadro e a música podem ser entendidos por qualquer um. O texto por poucos. Não se engana com imagens. Engana-se com palavras. A invenção da imprensa foi uma grande contribuição à história universal da mentira. Com a facilidade de escrever e publicar, desenhistas danaram a escrever livros com erros de perspectiva. Depois com a invenção da gravação de sons, desenhistas danaram a compor e gravar músicas baseadas em seus problemas oftalmológicos. Beethoven era um compositor surdo, talvez se fosse cego não faria sua grande música. Goya era um pintor surdo. Se fosse cego, talvez tivesse inventado a pintura contemporânea. Mas voltemos à mentira. Deus não mente porque Deus fala com coisas. A realidade é a voz de Deus, Cristo é seu verbo. Dito isso, o diabo é o pai do discurso, porque é do discurso que vem a dialética, o sofisma, o argumento, o logro, a malícia, a esperteza, a velhacaria. Toda a festa em torno da palavra, do texto, que os modernos fazem tanto é uma ode a belzebu, pois a palavra humana é a matéria-prima da enganação. Pode não ser a única, mas é a mais eficaz. Não se engana ninguém com um minueto nem com uma aquarela. Há que se recorrer à palavra para capturar incautos. Em algumas gerações, quase todo mundo estará vendo o mundo às avessas graças ao poder das sugestões oriundas de teses de doidos. Por exemplo, hoje é comum que acreditem que o homem fez Deus (e não o contrário), culpa de tanto derramamento de tinta dos iluministas (enquanto seus ídolos políticos faziam igual derramamento de sangue). Ora, para acreditar que Deus fez o homem basta ser criança, para acreditar que o homem fez Deus há que se ler um bocado. Ninguém tem a mente entortada sem muita leitura. Por isto, não leio, vejo. Por isto não leio, assovio, por isto não escrevo, descrevo. Um humorista que não sabe desenhar é um pouco triste, pois o desenho potencializa magnificamente as possibilidades do humor. Todo humor é descritivo. Nenhuma teoria é engraçada. Algo sem graça é algo sem Deus. As belas artes e a música são possibilidades não verbais de comunicação e só a comunicação não verbal é sincera. Quando alguém quer mentir, fala alguma coisa. Minta com um ato que eu quero ver! Quando quer mentir muito e despudoradamente, escreve uma tese filosófica. Por isto o desenho é fundamental ao humorismo, pois o humor é o reino da verdade e da franqueza. A política é seu extremo oposto, por isto é difícil desenhar a política. Desdenho o que não desenho. A política é espaço da palavra e dos argumentos, é, pois, o espaço da mentira. Se Marx desenhasse suas teses seria tomado por um pintor surrealista e ninguém tentaria colocar aquilo lá em prática como não se tenta derreter relógio ou criar pedras que flutuam como Magritte e Dali faziam em seus quadros. Não é à toa que os surrealistas se dizem influenciada por Marx e Freud. Marx e Freud são os verdadeiros inventores do surrealismo. Este é o grande mal: os artistas são influenciados pelos intelectuais, quando seria muito mais bonito que não o fossem. O artista é o portador da beleza. E é a beleza que devemos seguir. A beleza não é uma teoria. A beleza é como o tempo em Santo Agostinho, nós não sabemos defini-la, mas sabemos o que é. Só coisas pequenas são definíveis. O artista se apequena e apequena sua arte quando segue os teóricos. Que livro influenciou Bach? Os Evangelhos. Que livro influenciou Rembrandt? Os Evangelhos. Já o dadaísmo definitivamente não foi influenciado pelos Evangelhos. Não há Deus – quer dizer grandeza – na arte moderna e na contemporânea. Quando a arte se torna míope, astigmática e glaucomatosa, ela expulsa Deus de seu campo e vice-versa. A pintura moderna é um borrão, a música moderna é um barulho assustador (ou um paradoxal silêncio), as instalações, que começaram como piada em Duchamps, são verdadeiros insultos ao público. É interessante que a arte faça o caminho inverso ao que dizia Marx, onde a farsa vem antes da tragédia. Quando o filósofo teoriza mal, o artista faz má arte e o político barbariza. O pensador influencia não só a arte, ele – e o místico – influencia toda a cultura ao seu redor. Salvador Dali lê Marx e faz aqueles quadros oníricos. Mao Tsé-Tung lê Marx e ordena a matança de 60 milhões de pessoas. Marx bem poderia ser um pintor e então só influenciaria outros pintores, no máximo. Artistas são seres estúpidos. Beethoven fez sua sinfonia nº 3 em homenagem a Napoleão Bonaparte. Como Napoleão Bonaparte poderia homenagear Beethoven? Eis o problema. Um político se deixa influenciar por um pensador, não por um músico. Para fazê-lo, Napoleão teria que ter imaginação. Teria que ouvir Beethoven como se fosse um conselho. Teria que sonhar Beethoven. Teria que tatear Beethoven. Porém, um homem com tal imaginação jamais seria um político. Seria um poeta. Beethoven influencia poetas. Um filósofo não precisa ser escritor e ninguém precisa escrever para ser um místico ou um profeta. Sua vida é sua obra. Sócrates, considerado o pai da filosofia e da ética, nada escreveu. Jesus de Nazaré, o homem mais influente da história, também nada escreveu. Um filósofo que escreve demais tem muita chance de se enrolar e enrolar os outros. A influência maior é sempre de um místico, de um profeta e de um filósofo. A arte influencia e é influenciada. Porém, há na arte uma autofagia. Raramente um artista influencia sua cultura, geralmente ele é influenciado por ela. Duchamps, que mudou nosso modo de olhar a arte, não era um construtor de sua arte. Influenciou mais como filósofo da arte do que como artista. O olho é mais inteligente do que o cérebro. Não obstante, muita gente acredita mais no que pensa do que no que vê. Se você quiser viver de enganar, que Deus o faça desenhista, jamais filósofo. No fim das contas, todos são retratistas da realidade e se não são deveriam ser. No desenho, você pode criar novos mundos que são imediatamente ao primeiro olhar identificado pela pessoa mais simplória como algo que não existe. Na filosofia, porém, não há consumidor simplório. Todo mundo é inteligente demais para ter a coragem infantil de dizer que o rei está nu.

Figura do Meio

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Uma resposta para “MORFOLOGIA

  1. Para ler, reler, reler… adorei

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