MAIO


É maio. Em maio, sempre me dá uma vontade de mudar algo. É como se eu agüentasse tudo até abril. Maio não! Em maio, algo precisa ser feito. Mas ainda chove. “Que coisa, né? Ainda chove!” Maio me segura pelo colarinho e me obriga a prestar contas de alguma coisa. E aquilo tudo que planejei fazer neste ano, como anda? E o que já estou fazendo, tem futuro mesmo? Logo mudarei de idade. Número é importante. Quando alguém faz 39 anos, sente uma fisgada: o prenúncio dos 40. E fica um pouco triste por fazer 39. Bom mesmo era 38. Quando faz 40, tudo muda, passa a achar 39 um número muito simpático. A mudança de idade é uma das grandes ilusões. Uma ilusão das mais reais. É quando bate em cada um a fobia mais comum destes tempos: a cronofobia, que é o medo exacerbado e neurótico de envelhecer. Ah, sim, a mudança de idade é ilusão porque o tempo não para e a todo instante estamos envelhecendo e um dia depois do aniversário você está tão velho quanto estará no dia seguinte, mesmo que ainda falte 1 ano para mudar de novo de idade. Mas é maio, eu dizia. E acho que maio é assim pra todo mundo (mas sei que não é). Em maio começa certa impaciência com o resto do ano. Carnaval ficou pra trás, a páscoa já é quase esquecida, você não tem mais desculpas para enrolar, pois o tempo grita, bate panelas, dá rasteira, joga água, ri histericamente, critica suas roupas e sapatos, faz débitos em sua conta, ignora seu afã de “porquês”, aplica provas sem avisar, ignora seu corte de cabelo, quebra a quarta corda de seu violão, enche as ruas de carros andando lentamente, não deixa ler livros, provoca dores no pescoço, impede de ver filmes, dá más notícias, escova os dentes em sua frente, obriga a ouvir e falar de futebol, comer fibras e agüentar a religião laica dos esquerdistas, toca canções que você detesta em alto volume, vende um sapato que escorrega, atrapalha o quanto pode e aquilo para o qual você nasceu só floresce e dá frutos em meio a pedras e joios sob esforço heróico. O tempo incomoda com todos os instrumentos que dispõe e os instrumentos são inumeráveis e não se pode reclamar, afinal, a casa é dele, você está só de passagem. Urge que se faça algo para que junho chegue logo. No mês de maio eu entro um e saio outro. É sempre uma revolução. Maio é o mais longo dos meses. É uma espécie de outubro do primeiro semestre. É a quarta-feira dos meses. Segundo ato de ópera longa. 38 anos de um perdedor. 25º ano de uma ditadura. Terceiro ano do curso de Direito. 40º minuto de uma corrida de 1 hora de um sedentário. Folha 12 de monografia. Maio é uma gota no tempo. O tempo é um oceano vasto para que caiba todo o universo (e universos) e todos os espíritos a zanzar por presente, passado e futuro. E é este o maio da questão. Nosso espírito está tranqüilo passeando por julho e ainda é maio. Nosso espírito está todo excitado curtindo janeiro e já é maio. Nosso espírito não gosta muito de nosso corpo, pois vive a fugir dele e parte para se divertir em outros lugares. Nosso corpo sofre os dardos da realidade presente e chama o espírito de volta, pois o corpo só deve agir sob o comando do espírito (o corpo grita para o espírito: “o que é que eu faço?”). E o espírito sofre quando retorna ao corpo. Claro que o espírito deve andar por passados, futuros e por universos múltiplos, pois ele tem o poder de fazer isto e essas viagens fazem parte de sua luta contra a corrupção, embora muita corrupção também advenha de tais viagens. O fato é que o espírito passeia, passeia e passeia (pois ele não é deste mundo). E o corpo se queixa. O espírito tem o corpo para estar na realidade presente. É só nesse momento que ele precisa do corpo. Quando pode fugir da realidade, o espírito só precisa do corpo para poder voltar para ela quando quiser. Mas a realidade presente é enfado. A realidade presente apenas dá ao espírito a incerteza de que ele não existiria fora dela. Quando o espírito tem certeza de que é eterno, de que o corpo e a realidade lhe servem de transporte e que ele, espírito, é o verdadeiro passageiro, a coisa ganha outros contornos e os meses de maio ganham peso maior. (Para ficar maior, maio só precisa de um “R”). Maio fica mais pesado porque a existência também fica. Não é o tempo, é a realidade que pesa, pois a realidade existe para baixar nossa bola, para limitar nossos passos. Mesmo assim, o tempo é útil. O tempo organiza tudo. O tempo é a eternidade colocando ordem nas coisas. Mas o tempo, quer dizer, a realidade concreta e presente é apenas uma opção ao espírito, que vaga, vaga, vaga e só muito de vez em quando se lembra de visitar Brasília, coincidentemente quando a namorada me visita ou eu a ela, quando pego o violão para tocar uma canção, quando faço qualquer coisa que me faça esquecer o tempo. Seria o espírito inimigo do tempo? Lutamos contra tudo o que nos limita e nos delimita. Quando o espírito vem até Brasília e entra como um fantasma a tomar rédea de meu corpo, me dou conta de que é maio e que preciso fazer tudo aquilo que prometi fazer em janeiro e que meu espírito vagabundo ficou vagando por aí e não me deixou fazer. É maio. Maio me deixa assim. Em maio começa a soprar um vento novo. Literalmente vento e literalmente novo, pois não estou aqui só para metáforas. É o vento que anuncia o frio que teremos no ano. O vento que anima um nortista como eu que cresceu sob um sol de 43 graus em média. Um calor absurdo que detona qualquer pretensão intelectual, pois impede vigorosamente toda tentativa de leitura. O calor atrapalha. O vento anima. Ainda estou para entender, talvez morra e não entenda, porque o calor é tão bem visto pela maioria da humanidade. Calor se tem na África, na América Latina e no Oriente Médio. Só lugar miserável, brega ou barra pesada, o que prova incontestavelmente que o calor não desperta boa coisa. O norte e o nordeste brasileiro não são pobres por coincidência. São pobres de calor. Quero um lugar frio, pois o frio nos conduz ao aconchego e o aconchego nos faz mais carinhosos, pensativos e leitores. O calor é como a natureza, é bom na TV. Na vida real, o calor é mau. Como a natureza na vida real é difícil e perigosa. A natureza tem formiga de fogo, cobra coral, onça maracajá, porco queixada, coisas de que só quem vive no mato morre de medo. Quem está na cidade quer proteger, pois só os vê na TV. Pergunte a um caipira o que ele pensa quando vê uma onça e ele responderá: “só penso em acertar um tiro bem no meio da testa do bicho”. Todo o povo deveria procurar o frio e deixar o calor para as feras. Maio tem isso de bom: anuncia o frio. O tempo ficará como acho bom. Brasília tem enorme vantagem, aqui se tem sol brilhante e frio ao mesmo tempo, pois os prédios são baixos e o vento passeia pelas quadras e entra nas janelas. E o céu de Brasília, mesmo coberto de nuvens, é o mais bonito do mundo. Se Paris tivesse o céu de Brasília não seria Paris, seria o paraíso. Maio faz de Brasília uma Paris do cerrado, pois Paris é como Brasília, não tem montanhas. Infelizmente o céu de Paris raramente é azul. As nuvens gostam de Paris. E Paris em seu momento mais quente é como Brasília em maio, são aqueles 20 graus no começo da noite. Que não é frio, mas não é um calor que chegue a incomodar. Os ventos de maio me acariciam. Os ventos de maio me sopram cantigas, sou levado a escrever, a tocar violão, a sonhar mais, fico todo noel, todo capiba, todo guinga, todo Nazareth. Fico todo garoto e me aumenta em um por cento a auto-estima (podem achar pouco, mas 1% é a diferença que os darwinistas vêem entre homens e símios). Não quero falar mais em espírito vagando. Hoje pensei que o que chamo de meu espírito passeando é o que outros chamam de sonho. Distraídos em sonhos, planos, noticiários, o mundo que não para e exige nossa atenção não vemos o tempo passar até chegar maio e nos pedir sua atenção. E maio chega com sua brisa fria pedindo, pedindo, pedindo… Maio é nosso amigo. Amigos chamam atenção. Amigos corrigem.
Amigos nos inspiram enquanto nos trazem à realidade. Amigos são os maiores presentes que ganhamos de Deus. No meu caso, Deus me constrange com tanta generosidade. Meus amigos são a razão que tenho para não ter cronofobia, ao contrário, goste de envelhecer, pois isso significa que terei mais tempo com meus amigos, a maioria vivos, graças a Deus. A morte não me assusta, pois já tenho grandes amigos do outro lado e será maravilhoso revê-los. Vocês não imaginam como é perder um grande amigo. Um amigo tão grande desses insubstituíveis como todos os outros. É muito triste. Assustador. Terrível. É traumatizante a perda de um amigo. E de dois? Quando o segundo amigo se vai, outra pessoa enorme e fundamental em sua vida que morre assim quase de repente. Como é? É mais terrível? Mais triste? Mais assustador? Não. A segunda morte de um grande amigo é uma libertação, uma iluminação. Você pensa: “é, é assim mesmo!” e em seguida começa a ver a morte como ela é: uma recompensa por serviços prestados e passa a invejar enormemente seus amigos que morreram e ficar feliz, pois em breve, todos nós estaremos unidos sob a mesma recompensa, como diz aquele pré-socrático, para o qual a existência deve ser paga com a inexistência. A recompensa que tira o presente e dá a eternidade. Tira os limites e nos dá o ilimitado. Tira 5 e dá 95 sentidos novos. Tira a ânsia e concretiza toda a esperança. Esperança no que nem sabemos, pois nossa mente não consegue sonhar com o que nos espera. Não é permitido ao nosso espírito passear por lugares tais antes da morte, quando tudo nos será esclarecido e a guerra permanente que travamos cessará. Uma vez fiz um poema assim: “Se hoje eu morresse / Quantos poemas / Talvez se perdessem / Talvez dezenas / Talvez nem este!” Hoje vejo a morte como um progresso sem nenhuma perda. Além disso, o mundo não precisa de mais poemas. Temos que escrever o absolutamente mínimo. O máximo do unicamente fundamental e nem uma aspa a mais. Tudo o que se escreve é desnecessário, inclusive isto. Nada do que se diz tem importância, inclusive isto. Quem lê tanto, para que se escreva tanto? Mas quem disse que alguém escreve para que alguém leia? Eu, por exemplo, duvide-o-dó que alguém que começou este texto tenha chegado até aqui. Ninguém chegou até aqui e nada perdeu. Quem começar ler a partir daqui sugiro que não leia o começo. Nada perderá. Trata-se de um texto tipicamente secular, mesmo que o tema seja um mês e não o século, mesmo que o termo “secular” não tenha aqui relação alguma com o tempo e sim com o mundo. Secular = mundano. E neste texto secular tento me desvencilhar do tempo que me trouxe de volta da costumeira procrastinação. A procrastinação é um dos impulsos mais humanos porque não gostamos do tempo em que estamos, pois nascemos no tempo, mas não nascemos para o tempo. Ah, meu Deus, essa história não acaba nunca. Preciso fugir de maio, pois tenho que evitar que minha vida seja um eterno presente. A eternidade é mais que um presente. É maio. Maio me deixa assim.

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8 Respostas para “MAIO

  1. Saudade dos seus textos, César!
    Beijos

  2. Olá. Faço 45 em maio e o começo do mês está sendo ótimo para mim. Desejo-lhe o mesmo.

  3. Adoraria ler um livro seu.

  4. Pensei que poderia ler aos poucos. Findaria em julho ou agosto talvez. Só você mesmo para escrever um texto longo e fazer a gente esquecer de parar.

    Paz e bem!

  5. Não fique triste. O importante não é o quanto se vive, é como se vive. Que Deus ilumine você e os seus 40 anos!
    Abraço
    Oburrocrata

  6. escreves bem de maio á maio 🙂

  7. Estou sentindo a mesma coisa quanto a maio = /
    É o peso da procrastinação.

  8. Olha, não consigo parar de ler … assim como comentaram acima, queria ler um livro seu. É digno dessa dedicação e esperaria ser digno de ler.

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