POIS É, POESIA…

Coleciono algumas coisas:
Refeições, cafés-da-manhã, sonos, sonhos, pensamentos.
Também coleciono olhares, perfis, sorrisos, risos e palpitações.
Coleciono palavras, temas, cismas, contradições, paradoxos e oximoros.
Frustrações, problemas, ânsias, amores, medos e dúvidas.
E principalmente coleciono as certeiras setas do acaso.

Queremos anestesia para a dor,
Mas não para a carícia.
Ora, não é assim que funciona.
A anestesia insensibiliza tudo.
E a carícia precisa do espaço
De andar mão na mão com a dor.

Não se faz cirurgia enquanto o paciente dança.

Não tenho bom senso, nem loucura
Nunca fiz nada que preste, nunca fiz nada terrível.
Nasci, parece, para levar o meio-termo ao extremo.
Para ser o absolutamente morno.
Mas ainda há tempo!
(Enquanto o hexágono não me apanha)

Discordo do consenso, discordo da discórdia.
Não me importo com quem é incoerente
Mas admiro muito quem não o é.
Tenho horas de muita, muita fé
Entremeado de pencas de descrença

Tento não me lamentar quando sofro
Tento não comemorar quando venço
Tento fazer tanta coisa enquanto penso
Mas só me concentro quando nada faço
E a concentração para nada mais vale.

Qual formiga equilibrando fardos
E o fiel que perdeu a inocência
E pende sempre para outros lados
Que na igreja só se lembra de indecência
E no bordel chora o peso dos pecados
E esmagado pelo fardo da incoerência.
Roga a Deus para que seja perdoado.
(Perdoado significa completado)

E de repente não sabe se é ateu ou crente
Pois o ateu também tem lá suas crenças
E o crente duvida absurdamente
Então, como saber o que se é
Se crer/descrer é de todo ser humano?

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4 Respostas para “POIS É, POESIA…

  1. …”E principalmente coleciono as certeiras setas do acaso….”

    Um belo poema, uma profunda reflexão.
    Parabéns

    abraço

  2. César, querido,
    gostei demais da tua poesia!!
    Mas, quer saber? Vc não coleciona nada! Vc é livre de tudo isso!
    Não, não sou eu que estou dizendo, é vc mesmo, pois p/cada “item” vc apresenta um “anti-item”. Ora, não é verdade que duas cargas elétricas de mesma intensidade e sinais opostos anulam-se mutuamente (neutralizam-se)?
    Ou, em linguagem filosófica: tua poesia é dialética: tese, antítese, síntese.
    E a sábia síntese é vc mesmo.
    Vc não coleciona nada, vc se renova, se supera nos opostos, se transcende…por isso vc é essa pessoa linda que eu tive a honra de conhecer.
    Abraço grande,
    Dana

  3. Dana, felizmente, o poeta é um fingidor. Levo muito a sério esse fingimento. Acho que tem de mim nessa poesia tanto quanto não tem. E os itens e antitens vão tensionando o eu e o não-eu. E a poesia, depois de feita, pertence a todos. Muito obrigado pelo comentário.
    Obrigado, Sueli pela visita e comentário generoso. Em breve lhe darei notícias sobre os “seguidores” do blog. Ainda estamos fazendo um monte de ajustes.

  4. escreves muito bem 🙂

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