A SEREIA

A sereia se mudou para o sertão. Ela sabe que aquilo ali será mar em breve (lera isso no livro de Euclides da Cunha). A vida no sertão é árida, mais do que sereias suportariam. Mesmo assim, dizem, a sereia já encantou três sertanejos. As mulheres estão preocupadas: com a sereia que chegou e com o mar que chegará. A sereia passa fome no sertão. Pensava ela que poderia viver de dar aulas de natação. “Não me admira que estas pessoas passem fome, ninguém quer aprender a nadar. Quando vier o mar, sentirão falta de saber nadar”. A sereia sofria como sofrem os profetas que vivem não a vida que têm, mas as profecias que adivinham. Ensinava para as crianças o que era água. Descrevia o mar. Dizia-lhes: “mar é o que eu choro”. E dava suas lágrimas para que os meninos provassem. Ela, que tinha ensinado a nadar tantos peixinhos… Lembra-se da escola que tinha no fundo do mar. Os peixinhos nasciam e iam pra lá. Ainda nem sabiam nadar e saiam cantando, “quem me ensinou a nadar foi a sereia do mar”. Orgulhosa, a grande professora que vivera de nado, agora nada. Nada de nados. Um dia foi à missa, pois ouviu falar de água-benta. Onde ouvia falar de água, ela ia. “Cadê a água benta?” Não havia, ela tinha que aguardar, pois a água (sempre) não dava para nada. Aguardar água que não dá, água(r)dá. “Sem água ninguém aguenta, dá-me um pouco de água-benta, para a vida dessa gente”. “Dá-me um pouco de aguardente”, os homens diziam atrás, completando a rima e profanando o canto da romaria. Na Igreja descobriu velhos conhecidos, “Santa Bárbara? Conheço demais, ela acalma as tempestades” e Maria? “Ah, é a minha rainha, ela é a dona do mar e é mãe do filho do Criador, adorei essa religião”. E ficou por ali, como todos, naquele lugar sem nenhuma ordem e nenhum progresso. A sereia era um dentre os sertanejos que esperavam o mar. Conversava com o vento. Chamava aquele vento de “vento de refrescar”, pois os ventos do mar são “ventos de levar”. Sempre pedia: “quando eu morrer, me joguem no mar”. Cantava: “eu não sou daqui, eu não tenho amor”, mas assumia que agora, era sertaneja até embaixo d’água. E sorria.

PS – Este conto curto meu foi adaptado para a linguagem de HQ, veja aqui.

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6 Respostas para “A SEREIA

  1. Não seria a “cauda” que ela balançava?
    Xapralá…. está ótimo, como sempre!
    Adorei os quadrinhos.
    Beijo
    Áurea

  2. Que lindinha a sereia, ela podia ser amiga do indiozinho do vírus 🙂 E viva Santa Bárbara! Bj

  3. Comentaram, né? (hehehe)
    Obrigado a todos.
    Pronto, já tirei o rabo da sereia (que não havia no original do conto).
    Da próxima vez, escreverei “çer umano”, me aguardem.

  4. Nayara de sa santos

    A sereia se mudou para o sertão. Ela sabe que aquilo ali será mar em breve (lera isso no livro de Euclides da Cunha). A vida no sertão é árida, mais do que sereias suportariam. Mesmo assim, dizem, a sereia já encantou três sertanejos. As mulheres estão preocupadas: com a sereia que chegou e com o mar que chegará. A sereia passa fome no sertão. Pensava ela que poderia viver de dar aulas de natação. “Não me admira que estas pessoas passem fome, ninguém quer aprender a nadar. Quando vier o mar, sentirão falta de saber nadar”. A sereia sofria como sofrem os profetas que vivem não a vida que têm, mas as profecias que adivinham. Ensinava para as crianças o que era água. Descrevia o mar. Dizia-lhes: “mar é o que eu choro”. E dava suas lágrimas para que os meninos provassem. Ela, que tinha ensinado a nadar tantos peixinhos… Lembra-se da escola que tinha no fundo do mar. Os peixinhos nasciam e iam pra lá. Ainda nem sabiam nadar e saiam cantando, “quem me ensinou a nadar foi a sereia do mar”. Orgulhosa, a grande professora que vivera de nado, agora nada. Nada de nados. Um dia foi à missa, pois ouviu falar de água-benta. Onde ouvia falar de água, ela ia. “Cadê a água benta?” Não havia, ela tinha que aguardar, pois a água (sempre) não dava para nada. Aguardar água que não dá, água(r)dá. “Sem água ninguém aguenta, dá-me um pouco de água-benta, para a vida dessa gente”. “Dá-me um pouco de aguardente”, os homens diziam atrás, completando a rima e profanando o canto da romaria. Na Igreja descobriu velhos conhecidos, “Santa Bárbara? Conheço demais, ela acalma as tempestades” e Maria? “Ah, é a minha rainha, ela é a dona do mar e é mãe do filho do Criador, adorei essa religião”. E ficou por ali, como todos, naquele lugar sem nenhuma ordem e nenhum progresso. A sereia era um dentre os sertanejos que esperavam o mar. Conversava com o vento. Chamava aquele vento de “vento de refrescar”, pois os ventos do mar são “ventos de levar”. Sempre pedia: “quando eu morrer, me joguem no mar”. Cantava: “eu não sou daqui, eu não tenho amor”, mas assumia que agora, era sertaneja até embaixo d’água. E sorria.

    PS – Este conto curto meu foi adaptado para a linguagem de HQ, veja aqui.
    É muito grande eu usei este testo até para fazer o trabalho da escolha sobre sereias

  5. Nayara de sa santos

    Este texto é muito grande !
    Eu ja usei ele para fazer o trabalho de escola sobre sereia a professora me deu 10,0 muito obrigado para quem descobriu essas idéias!bjssss da nayara para os autores desse texto
    nome:nayara de sá santos
    estado:rio de janeiro
    filiação:edvaldo moreira santos e fabiana de sa pereira

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