EU E O ZÉ

Eu ouvia Soy Latino Americano, Hora Extra, O dono da Verdade, Vem o hômi, Lili, Quando Será? e outras dele que tocavam nas rádios de minha infância, então, soube que era o compositor [em parceria com Tavito] de Casa no Campo e que depois se tornou publicitário. Então, muito depois, veio a lista m-musica e conheci o Zé Rodrix de carne e osso e foi um impacto. Desde os primeiros contatos, um monte de coisas se mexeu em minha cabeça, alguma coisa mudando, a maioria se confirmando o que eu já pensava e muito se revelando cristalinamente como se eu sempre soubera. O Zé foi isso para mim: um enorme clarão. Ótimo frasista e contador de histórias, iconoclasta no ponto certo, radical sem ser chato, um tipo de Sócrates contemporâneo, tudo o que se quer ser quando crescer. Ainda que, ultimamente, afastado da m-musica e sem contato direto com o Zé, era sobre ele que eu mais falava, é sobre ele que mais falo. Semelhante aos oráculos, para todo situação há uma frase ou uma história do Zé que se pode usar para esclarecer ou explicar. Para toda situação tensa, há uma piada do Zé para aliviar. Para todo silêncio, há uma palavra do Zé para brilhar. Depois do Zé, cessou a falta de assunto. Era uma maravilha ler as mensagens do Zé, que criticava o mesmismo – e as tais 42 canções “boas”, eternamente cantadas – a falta de originalidade, a subvenção às artes (leia isto) e o artista que grava 1 disco por ano e não apenas quando tem algo bom para mostrar etc. Com base nas idéias do Zé, escrevi vários textos. Aprendi com o Zé, por exemplo, a ser menos preconceituoso em questões artísticas, pois para o Zé não há artista bom nem ruim e sim obra boa ou ruim. O fato é que o Zé acreditava na redenção das pessoas, acreditava que nada impedia que o Wando, por exemplo, fizesse um excelente disco, afinal o Wando está vivo e pode nos surpreender, como todo ser humano o pode. Por outro lado, um morto não surpreende mais e um dia desses, infelizmente, o Zé cessou de nos surpreender, fechou-se o ciclo, encerrou sua história, nada mais dirá e nada mais lhe será perguntado. Sua vida está brilhantemente terminada e completada. História escrita parte pelo Zé e parte por Deus, que, satisfeito com a parceria, chamou o parceiro para Si. Obrigado e até breve, Zé.

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6 Respostas para “EU E O ZÉ

  1. Ave, César!
    Belíssimo texto. Zé é merecedor de todas as homenagens, pelo tanto que, tão generosamente, nos legou. Principalmente com seu exemplo.
    Eu aprendi muito com aquele memorável debate que vocês dois protagonizaram, e creio que muito gente diria o mesmo. Foi um bom combate!
    Viva Zé Rodrix!
    Abração

  2. César, mais do que um belo post, este é um post necessário. É necessário que se diga sobre a pessoa necessária que foi o Zé. Pois, poucos sabem e isso é uma pena. E isso sim é uma grande perda. Uma pessoa rara passou por nós e poucos se deram conta. Essa é, na verdade, a maior perda.
    E, além de tudo, ficou lindo o post, meu caro.

  3. Po, além de tudo , um amigaço. Ele desafiava o próprio cansaço pra estar com a gente.

  4. César,
    que maravilha de texto!
    minha alma se abriu de novo!
    grande abraço,
    apá

  5. Ótimo texto, César. O Zé merece, sem dúvida.

  6. César, também conheci o Zé através de uma lista de discussão e assino embaixo de tudo, era a mesma pessoa onde quer que estivesse e com quem quer que falasse.

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