ARTIFICIALMENTE

Lendo artigos sobre um programa que faz o tuitador ter mais seguidores sem fazer esforço, fiquei pensando. A subida artificial também dá prazer, pois o importante é subir, mas tem hora que a pessoa que subiu artificialmente para para (viu o que a reforma ortográfica fez?) pensar e fica um pouquinho envergonhada de não ter contribuído com a própria subida. Ganhar na mega sena é ganhar dinheiro artificialmente. Os milionários que ganharam dinheiro com seu trabalho devem olhar com desdém para um ganhador da mega-sena (nem devem frequentar o mesmo clube). O ganhador da mega-sena deve se sentir mal de vez em quando por ser tão rico de forma artificial. Sempre me imagino dizendo meus desejos a um gênio da lâmpada. Além de saúde e unzinho pr’eu parar de me virar, pediria capacidade ilimitada de aprender as coisas que gosto e preciso. Dali para frente, seria comigo a responsabilidade de chegar aonde acho desejável. Isto é, mesmo com as habilidades conquistadas artificialmente, eu ia querer fazer um grande esforço para produzir coisas e para meus talentos não parecerem assim tão artificiais. O gênio deveria pensar “tsc, tsc, tsc, gente é bicho esquisito”. Gente quer ter mérito pelo que faz e obtém. Por outro lado, como diz aquela frase do Ronald Reagan, você consegue o que quiser contanto que não faça questão de ficar com os méritos. Muita gente faz o contrário: não consegue o que quer apenas por que não ficaria com os méritos da conquista, afinal, o mundo não admira muito (nem se lembra de) quem deu os passes para os mil gols do Romário. O dogma da graça é um dos mais combatidos, por tirar o mérito da própria salvação da pessoa do pecador e passá-lo para o amor de Deus revelado no sacrifício de Cristo. Inclusive, a maioria das religiões baseia a bem-aventurança a seus fiéis na meritocracia. A graça é uma coisa exclusiva do cristianismo (e do catolicismo em particular, pois há seitas cristãs que também advogam a meritocracia como critério para entrar no paraíso, como se nossos méritos pudessem se equiparar ao amor de Deus). Então, eu me pergunto, como ficarão as pessoas no paraíso? Meio frustradas por não merecerem estar lá? Por estarem lá “artificialmente”? Sentir-se-ão como o ganhador da mega-sena? Terão crises de consciência? Bem, caso alguém se sinta mal assim, é por que não está no paraíso, né? O fato é que o amor é mesmo injusto e, como diz o Padre Vieira, quanto mais injusto for, mais amor é. O inferno sim é o reino da justiça, pois só irá para o inferno quem merecer estar lá. E assim, me pergunto de novo, haverá alguma felicidade no inferno, a felicidade daqueles que sentirão que, no seu caso pelo menos, foi feito justiça e que ele realmente merece estar lá? Isso dará um alívio às almas do inferno e elas serão um pouquinho felizes? Mas, se houver felicidade, não é o inferno, né? Bem, deixo esses paradoxos para a eternidade resolver. E dá licença, que vou ali jogar na mega-sena.

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2 Respostas para “ARTIFICIALMENTE

  1. Ilmo. Sr. Miranda,
    Suas textos normalmente enchem meu coração de alegria e ternura.
    No entanto devo confessar que este em particular deu um nó cego no meu bulbo cerebral!
    Sempre tive um pé atrás com os dogmas dessa tal meritocracia e a forma como ela é frequentemente pregada… Tal qual uma religião!
    Partimos do pressuposto de que todos são igualmente capazes.
    Assim, o sucesso e seu corolário de luxos, prazeres, etc, é reservado a quem mais faz por onde.
    Acontece que há de fato pessoas menos capazes em todos sentidos… ignorante, preguiçosos, alienados crônicos e por aí vai…
    Meu ponto é: que lugar no mundo esta reservado a essas pessoas?
    Trocando em miúdos… elas devem se fuder por terem gravados em si tantos vícios e tão poucas virtudes?
    Nesse sentido, a meritocracia não soa como uma espécie de “ditadura dos bons”?
    Att
    O Burrocrata

  2. “A subida artificial também dá prazer” não é o slogan do Cialis?
    (Desculpe, não resisti).

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