ROTEIRO

Casal se encontra pela primeira vez e o romance invade o ambiente. No apartamento do rapaz (decorado com muito bom gosto), ele abre um champanhe, sentam-se próximos cada um em sofás colocados estrategicamente para deixá-los muito próximos e conversar literalmente face a face. Sentam-se e, olhos nos olhos, ele pede licença para colocar uma música. Vai até uma estante, pega um CD, coloca-o no aparelho e volta ao sofá. Quando se senta, a música começa tocar. É Amado Batista, aquela canção que diz “no hospital, na sala de cirurgia…”. A moça abre um sorriso e pergunta com voz emocionada: “puxa, você gosta do Amado? Eu adoro!”. O rapaz diz que gosta mais da primeira fase até quando Amado Batista fez seu filme “Sol Vermelho”, pois a partir dali, ele cedeu e tentou fazer uma música com uma harmonia mais sofisticada e que os primeiro discos são mais bem acabados com canções onde se ressaltam as pausas longas entrecortadas com colcheias quase sincopadas, demonstrando clara influência de Amado do romantismo alemão, sobretudo a fase final de Brahms. A moça cora de felicidade e diz que também sempre viu muito de Brahms em Amado Batista e achava que estava louca, pois nem tinha coragem de confessar isso aos amigos. O moço diz que desde que Amado abandonou um pouco sua veia do começo de carreira, ele passou a ouvir mais Wando e Fábio Júnior. Wando, que no começo da carreira fez uns sambas bem recebidos pela crítica, resolveu fazer música mais viva e sustentou isso por quase uma década fazendo discos antológicos. A moça diz que, sem dúvida, o Wando da segunda fase, a fase das calcinhas e canções de motel é o melhor que a música brasileira já produziu. O rapaz pergunta se ela quer tomar um vinho e a moça diz que quer. O rapaz vai à geladeira e traz um litro de Mioranza com dois copos desses de goiabada. A moça entra em êxtase. Pega a garrafa e, com voz chorosa, diz: “Mioranza, 2006, meu Deus, estou no paraíso, esta safra do Mioranza foi maravilhosa, claro que nada supera o sangue de boi 2002…”. Ele confessa que guarda uma garrafa Chapinha 1988 para uma ocasião super especial, por exemplo, quando se casar. Ela diz: “eu aceito”. Os dois riem muito. No fundo, Amado canta.

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