A HISTÓRIA QUE RESOLVI ESCREVER – XII

Comprei tintas e telas. Resolvi esquecer a literatura e me dedicar à pintura nas horas vagas. Havia um barracão no fundo do quintal, que me pareceu adequado. Mas pintar o quê? Fui atrás de umas fotografias antigas em preto-e-branco e achei uma muito interessante. Era a casa de minha infância na roça. Era uma casa modesta, muito parecida com aquelas de desenhos toscos que crianças que não sabem desenhar fazem. Coberta de palha, com duas janelas. Ao lado havia uma cerca de arame sem farpas que minha mãe usava para estender as roupas. Resolvi pintar aquela paisagem e inseri no desenho uma mulher segurando um menino pelo braço quase entrando na casa. E foi o que fiz. Coloquei muitas nuvens no céu e roupas no arame. Levei uns dois dias para o quadro ficar pronto. Meu estilo é meio impressionista, meio Manet meio Renoir. Depois do quadro pronto, cobri-o com um pano, deixei lá para secar e para pensar mais sobre ele, no que poderia ser melhorado. Naquela noite lembrei do arquivo com a história que eu tinha deletado há alguns dias. Poderia ainda estar na lixeira. E estava. Não me contive e o restaurei. Abri e o que vi foi uma terra devastada. Ao jogar para a lixeira, eu acho – pode até nem ter sido – provoquei tudo de terrível àquela gente. Terremotos, chuvas de granizo, enchentes, tufões, ciclones, furacões, pragas nas plantações e doenças de todo tipo. Morreram setenta por cento da população da cidade e já não se importavam mais com a igreja de que cada um fazia parte. As poucas pessoas que restaram se uniram como irmãs contra aqueles que, revoltados, saqueavam, estupravam, roubavam e matavam. Era a desordem. Fiquei surpreso com a situação causada apenas por eu ter clicado na tecla “delete” do computador e resolvi dar o fim àquela tragédia sem proporções e apaguei o arquivo definitivamente, até da lixeira. Pronto, estava acabada aquela história bizarra que me envolvera nas últimas semanas. Resolvi nunca mais escrever ficção. Não sei explicar o que houve. Não acredito que seja um tipo de poder que eu tenha, pois nunca aconteceu coisa semelhante antes. Não acredito que esteja ficando doido. Enfim, não sei o que pensar sobre esses acontecimentos. Porém, as coisas estranhas não tinham acabado ainda. Foi ali que resolvi escrever este relato e o fiz logo após terminar meu primeiro quadro. Isto foi há uma semana. Depois que deixei o quadro lá secando, enquanto pensava o que melhorar nele, comecei a escrever este relato a mão em um caderno, e rasgaria as folhas que sobrassem para não haver perigo desta história também continuar sozinha. Com o caderno debaixo do braço, fui ao barracão, pois me ocorrera fazer um retoque no quadro, iria acrescentar um pé de macaúba, que me lembrei que tinha no nosso quintal. E fui lá rumo àquele quadro de um menino e sua mãe entrando em casa, com muitas nuvens no céu e roupas secando no arame. Pois bem, quando retirei o pano de cima do quadro, o que vi foi uma linda aquarela onde se via a mesma casa, sob o mesmo ângulo, porém começara uma chuva grossa e a mãe do menino já estava no arame retirando as roupas para não molhar.

<h3 STYLE="color: navy; font-family: Helvetica, Sans-serif;
font-SIZE: 50pt”>FIM

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