A HISTÓRIA QUE RESOLVI ESCREVER XI

Meu romance já não era mais meu. Eu já não escrevia mais nada nele, apenas lia. Cismei que qualquer interferência minha seria danosa, pois fora danosa nas vezes em que interferi. Bem, quando voltei ao livro, resumindo tudo, havia começado uma quase guerra. Um dos fiéis do Templo do Grande Autor provocou uma cisma e fundou uma igreja protestante chamada “O Livro da Vida”. Ele não concordava com alguns dogmas de Alexandre Clark. Discordava dos longos períodos em pé e de profundo silêncio dos cultos no Tempo do Grande Autor, que, segundo Clark, seria uma reverência ao Grande Autor (eu, é mole?). O silêncio era para que Ele (eu de novo, hehehe) pudesse escrever o Grande Livro. O fiel protestante se chamava Gildásio e era um ex-cantor sertanejo, amigo desde quando um dia fora ao programa de rádio de Clark divulgar um LP seu. Gildásio entrou para o Templo e logo se tornou presbítero, que é um tipo de subpastor. Surgiram as discussões quando Gildásio teorizou em uma homilia para jovens que o “Grande Autor” era um modo de dizer, era outro nome que se daria ao Todo-Poderoso e eles, na verdade, não eram personagens de um livro coisa nenhuma. Aquilo era uma metáfora para o fato de que Deus fez o mundo e fez as pessoas, deu-lhes vida e o segredo da felicidade era que fizéssemos o mínimo possível, isto é, deveríamos entregar nossa vida a Deus e confiar. Era disso que se tratava toda a doutrina do Templo do Grande Autor, segundo Gildásio. Alexandre Clark chamou-o para uma conversa. Na verdade, era para seri uma espécie de inquisição digna do papo que devem ter tido São Bernardo e Pedro Abelardo na Idade Média, que resultou na excomunhão do Abelardo, mas não foi bem assim. Alexandre, que não era nenhum São Bernardo, era mais um pitbull, disse o seguinte: “você quer me destruir? Você quer acabar com minha igreja? Você está ficando doido? Que conversa é essa de metáfora? Metáfora é o caralho. Meta fora daqui essa porra dessa sua metáfora. Meta sua metáfora no cu”. Gildásio, incrédulo, arregalou os olhos e tentou uma reação e disse que era claro que era uma metáfora, pois quem seria idiota de acreditar realmente que aquilo lá era um livro e eles eram personagens? Alexandre disse que ele acreditava! Mais do que isso, tinha absoluta certeza, pois conhecera o menino que ouvia as vozes e conversara também com o tio do menino e não tinha a menor dúvida, pois, por exemplo, ele mesmo não lembrava da própria infância. E por que não se lembrava? Por que o autor não tinha escrito nada, apenas o tinha descrito como ex-locutor de rádio que teve um caso com uma fã, etc, etc. Gildásio disse que se fizesse um esforço se lembraria da própria infância e que Alexandre estava realmente maluco. Meses depois, Gildásio fundou a própria igreja, a qual deu o nome de “O Livro da Vida” e em pouco tempo estava com tantos fiéis quanto o Templo do Grande Autor. Consideravam-se mais inteligentes que “aquele pessoal do Templo”. Logo a cidade se dividia entre fiéis do Livro e fiéis do Templo. E começaram os aborrecimentos, as brigas entre fiéis, casais se separavam, famílias se destruíam por causa das duas igrejas. Aquilo foi demais para mim. Aquela gente lá… só matando. Fechei o arquivo, fui ao diretório onde ele estava e o deletei.

(continua…)

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