A HISTÓRIA QUE RESOLVI ESCREVER IX E X

Meu primo João era um sábio meio doido. Alguém muito caro a mim. Costumava dizer “nunca pisei um dia em escola”. Aprendeu sozinho a ler e escrever e álgebra. Ficou órfão muito novo, teve que lutar pela vida e tinha muitas histórias para contar. Mas, ali, era eu quem tinha história para contar. Contei minha história e ele me disse que era muito simples, bastava eu apagar o arquivo e não deixar nem na lixeira. Eu disse que não tinha coragem, que aquelas pessoas também eram gente, eu não podia sair por aí matando pessoas tão vivas. Ele caçoou de minhas preocupações, riu muito e me saiu com essa: “Primo, você é o criador desse povo, tem todo o direito de destruí-lo. Deus não destrói de tempos em tempos um povoado aqui, uma espécie ali? Toda hora se ouve história de tsunami, terremotos, vulcões. Desastres são coisas normais no mundo e, nesses eventos, sempre vão embora milhares de vidas. Deus não deve nem se coçar de preocupação nessas horas. Por que Ele mandou uma bola de fogo para exterminar os dinossauros? Não, não foi só para que tivéssemos petróleo anos mais tarde, não. Aqueles bichos deviam ser muito chatos e imundos e devem ter enchido muito o saco do Todo-Poderoso. Sodoma e Gomorra, aqueles lugares cheios de sodomitas e gomorritas, Ele nem pestanejou em mandar pelos ares. Pompéia, que devia ter muita gente boa, invadiu-lhe um rio de larva de vulcão, mandado pelo mesmo Deus que a fez. Destruir é um direito de todo criador. Isso está na Bíblia. Você fala dessa história como se fosse um problema. Não é, não. Olha, pára de escrever. Inventa outra diversão. Já pensou em pintar? Compra uns pincéis e umas telas e reproduz todos aqueles desenhos interessantes que você fazia quando criança. Já esqueceu?”. Não, eu não esquecera. Pintar era interessante. O problema da conversa com meu primo é que eu sentia que ele dava aquele conselho com uma convicção fingida de quem me julgava um maluco, mas tinha pena de mim ou medo de confessar o que realmente achava. Lembrei da piada do sujeito que diz para o amigo que o irmão acha que é uma galinha, mas que não o levará a um psiquiatra porque em casa precisam dos ovos. É como se o amigo, nessa piada, para não constranger o outro, o convencesse de que a ingestão de ovos demais é ruim para o colesterol e que a solução é deixar essa dieta de ovos de lado e levar o rapaz ao psiquiatra. Eu sabia que João me julgava um doido e toda aquela história de que o criador é também destruidor era só para não encarar minha loucura. Ele queria que eu deletasse um arquivo que ele não acreditava que existisse ou, se existisse, não seria tudo aquilo que eu dissera. Ele poderia ter sugerido outra coisa, por exemplo, que eu imprimisse logo e mandasse publicar, que queria ver a história continuar em um livro encadernado. Bem, eu estava confuso, não poderia mandar imprimir e mandar publicar porque a história não estava terminada, ninguém ia querer publicar aquilo. Não obstante, a idéia de apagar o arquivo começou a me parecer simpática.

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